“O Brasil pode enfrentar apagão de mão de obra”, alerta Reginaldo Lopes em defesa do fim da escala 6x1
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Deputado rebate discurso empresarial na comissão especial da Câmara, associa adoecimento ao atual modelo de trabalho e afirma que redução da jornada já se consolidou como demanda social irreversível
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 ganhou novo eixo político e econômico na comissão especial da Câmara dos Deputados: o adoecimento dos trabalhadores brasileiros.
Em uma das falas mais contundentes da audiência pública realizada terça-feira (18), o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) afirmou que o País poderá enfrentar, em poucos anos, “apagão de mão de obra” caso mantenha o atual padrão de exploração do trabalho.
Ao rebater os argumentos apresentados por representantes empresariais contrários às propostas em discussão no colegiado, o parlamentar sustentou que o custo social e previdenciário do adoecimento laboral já supera parte dos impactos econômicos alegados pelo setor patronal.
“O maior ativo deste País são os trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou o deputado, ao citar o crescimento dos afastamentos por transtornos psicossociais. Segundo Lopes, 474 mil trabalhadores foram afastados em 2024 por adoecimento relacionado à saúde mental e emocional. Em 2025, esse número teria subido para 540 mil.
Para o parlamentar, o aumento acelerado desses afastamentos revela problema estrutural do mercado de trabalho brasileiro e ajuda a explicar, inclusive, parte do desequilíbrio fiscal e previdenciário do País.
Deputado relaciona adoecimento ao déficit previdenciário
Durante a audiência, Reginaldo Lopes argumentou que o debate sobre jornada e escala não pode ser reduzido apenas ao impacto imediato sobre custos empresariais.
Segundo ele, há efeito cumulativo sobre a Previdência Social, impulsionado justamente pelo desgaste físico e psicológico imposto aos trabalhadores.
O deputado lembrou que o Brasil possui déficit nominal elevado e baixa capacidade de poupança interna, fatores que pressionam os juros básicos da economia. Mas, para ele, o crescimento do adoecimento laboral tornou-se também componente central dessa equação.
Na avaliação do parlamentar, manter jornadas extensas e escalas consideradas desumanas poderá produzir efeitos econômicos ainda mais graves no médio prazo, comprometendo produtividade, arrecadação e oferta de mão de obra.
Comissão busca saída negociada
Apesar do embate com representantes empresariais, Reginaldo Lopes sinalizou que a comissão especial caminha para solução negociada. Segundo ele, o relator da proposta, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), deverá construir mecanismos de transição para amortecer impactos sobre determinados setores econômicos.
O deputado reconheceu que a mudança terá efeitos sobre custos operacionais, mas afirmou que esses impactos são administráveis e inferiores, por exemplo, aos reajustes anuais do salário mínimo. Medida que, segundo ele, historicamente fortalece o mercado interno e dinamiza a economia.
Nos bastidores da comissão, a tendência é que o relatório trabalhe com implementação gradual da redução da jornada, buscando reduzir resistências de segmentos empresariais mais conservadores.
Formalização pode crescer com escala mais humanizada
Outro ponto central da fala do parlamentar foi a relação entre redução da jornada e formalização do mercado de trabalho.
Reginaldo Lopes destacou que, embora o Brasil viva cenário próximo ao pleno emprego, o País ainda possui cerca de 36% de trabalhadores na informalidade. Para ele, a manutenção de escalas exaustivas afasta trabalhadores do emprego formal, sobretudo os mais jovens.
Segundo o deputado, estudos que embasam a proposta dele indicam que até 30% dos trabalhadores informais poderiam migrar para empregos com carteira assinada caso fossem implementadas jornadas mais equilibradas e escalas mais atrativas.
O parlamentar citou experiências concretas do setor supermercadista para sustentar o argumento. De acordo com ele, empresas que passaram a adotar escala 5x2 registraram aumento significativo na capacidade de preenchimento de vagas.
Escala 6x1 enfrenta rejeição crescente
Ao relatar visita recente à cidade mineira de Congonhas, Lopes afirmou ter encontrado retrato simbólico da mudança de comportamento do mercado de trabalho brasileiro.
Segundo ele, durante feirão de empregos realizado no município, 11 empresas ofereciam vagas em escala 5x2, enquanto apenas uma mantinha a escala 6x1. O resultado, segundo o deputado, foi revelador: nenhuma pessoa aceitou sequer participar da entrevista para as vagas no regime 6x1.
A declaração reforça percepção que vem crescendo dentro e fora do Congresso: a de que o modelo tradicional de jornada perdeu legitimidade social, especialmente entre trabalhadores jovens.
“Essa matéria já se consolidou”, diz deputado
Em um dos momentos mais políticos da audiência, Reginaldo Lopes afirmou que o debate sobre redução da jornada ultrapassou os limites do Parlamento e se transformou numa reivindicação social consolidada.
Segundo ele, entre jovens de 16 a 24 anos, o apoio às mudanças chega a 90%. Para o parlamentar, ainda que a proposta enfrente obstáculos regimentais ou resistência empresarial, a pressão social tende a tornar inevitável algum tipo de transformação nas regras atuais.
A fala do deputado também expôs a crescente tensão entre parte do empresariado — que insiste na narrativa de aumento de custos e perda de competitividade — e os defensores da proposta, que passaram a centrar o debate na saúde mental, qualidade de vida e sustentabilidade do próprio mercado de trabalho.
Na prática, o que começou como discussão sobre jornada e escala passou a envolver temas estruturais da economia brasileira: informalidade, produtividade, Previdência, saúde pública e futuro do trabalho.
