Brasil registra salto de 70% na renda em três décadas, com desigualdade e pobreza em menor nível histórico, aponta Ipea
- Detalhes
- Categoria: Notícias

Estudo técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada analisa a trajetória de renda, pobreza e desigualdade no país de 1995 a 2024, com avanços concentrados em dois períodos distintos.
Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que a renda domiciliar per capita do brasileiro cresceu cerca de 70% em termos reais nas últimas três décadas, entre 1995 e 2024. No mesmo período, os indicadores de desigualdade e pobreza caíram para os menores patamares já registrados na série histórica das pesquisas domiciliares do IBGE.
A Nota Técnica DISOC nº 120, intitulada “Pobreza e Desigualdade no Brasil no Curto e no Longo Prazo”, mostra que, apesar do progresso substancial no longo prazo, os avanços não foram lineares. Eles se concentraram em dois períodos específicos: os anos de 2003 a 2014 e a retomada econômica pós-pandemia, entre 2021 e 2024.
Trajetória de Avanços e Retrocessos
De acordo com a pesquisa, a renda média por pessoa, que era de R$ 1.191 em 1995 (em valores de 2024), praticamente não se alterou nos primeiros anos após o Plano Real e chegou a ser 4% menor em 2003. A partir daí, iniciou-se um ciclo virtuoso de 11 anos de crescimento consecutivo, culminando em uma alta acumulada de 58% até 2014.
Esse período de expansão foi interrompido pela recessão de 2014-2016 e pela pandemia de Covid-19, que fizeram a renda média recuar. No entanto, o triênio 2021-2024 marcou a retomada mais vigorosa do poder de compra desde a estabilização monetária, com um crescimento acumulado de mais de 25%. Em 2024, a renda média atingiu o pico histórico de R$ 2.015 por pessoa.
A trajetória da desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini e pela razão de Palma, acompanhou os ciclos econômicos. Após anos de relativa estabilidade na segunda metade da década de 1990, a desigualdade começou a cair de forma consistente a partir de 2002, registrando 14 anos consecutivos de declínio até 2015. Esse movimento foi revertido nas crises seguintes, mas a retomada pós-pandemia permitiu que ambos os indicadores atingissem seus menores níveis históricos em 2024. O coeficiente de Gini recuou quase 18% no período de três décadas.
Queda Histórica da Pobreza
Os avanços contra a pobreza foram ainda mais dramáticos. Em meados dos anos 1990, um quarto da população (25%) vivia em extrema pobreza (abaixo de US$ 3,00 por dia, ou R$ 267 por mês) e mais de 60% eram considerados pobres (abaixo de US$ 8,30 por dia, ou R$ 738 por mês).
Com a combinação de crescimento da renda e redução da desigualdade, essas taxas caíram continuamente entre 2003 e 2014. A extrema pobreza foi reduzida em 17,7 pontos percentuais (p.p.), caindo para 7,0%, enquanto a pobreza recuou 26,5 p.p., para 33,2%.
As crises subsequentes, especialmente a pandemia, causaram um aumento significativo da pobreza, mas a recuperação econômica recente reverteu o quadro. Em 2024, a taxa de extrema pobreza despencou para 4,8% e a de pobreza para 26,8% – os menores números da série histórica.
Motores da Melhora Recente
A análise do Ipea identifica dois fatores de igual importância para a melhora dos indicadores sociais no período pós-pandemia (2021-2024):
- Mercado de trabalho: A aquecida geração de empregos e renda do trabalho foi responsável por cerca de 49% da queda da desigualdade e 48% da redução da extrema pobreza nesse triênio, revertendo completamente a tendência negativa observada entre 2014 e 2021.
- Transferências assistenciais: A expansão sem precedentes dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família (e suas versões posteriores, Auxílio Brasil e novo PBF) e o BPC, contribuiu com 44% da queda tanto da desigualdade quanto da extrema pobreza. O efeito redistributivo desses programas mais que dobrou em comparação com a média da década de 2010.
“O aquecimento do mercado de trabalho e a expansão das transferências assistenciais foram igualmente importantes para esse excelente desempenho dos indicadores sociais nos últimos anos”, afirmam os técnicos do Ipea Pedro H. G. Ferreira de Souza e Marcos D. Hecksher, autores do estudo.
Desafios e Limitações
A nota técnica ressalta que, embora as pesquisas domiciliares sejam a melhor fonte para o monitoramento anual, elas têm limitações conhecidas, como a subdeclaração de rendas do capital no topo da distribuição e de valores recebidos de programas sociais. Todos os resultados, portanto, devem ser interpretados considerando essas ressalvas.
Os pesquisadores também projetam que o ritmo de melhoria dos indicadores deve desacelerar nos próximos anos, uma vez que o ciclo recente de forte expansão das transferências de renda chegou ao fim. A partir de agora, os avanços dependerão ainda mais do desempenho do mercado de trabalho.
Os dados consolidam, no entanto, que após um período turbulento de múltiplas crises, o Brasil conseguiu não apenas recuperar as perdas, mas atingir em 2024 os melhores patamares de renda, igualdade e baixa pobreza em três décadas.
