Deputado do PSol desistiu de tomar posse e atribuiu decisão a ameaças de morte que vinha recebendo. Com publicação, Câmara dará andamento a processo para que suplente assuma. Com G1 e Correio Braziliense

A Câmara dos Deputados publicou na edição, desta terça-feira (29), do seu “Diário Oficial” a renúncia do deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ) ao mandato para o qual tomaria posse nesta sexta-feira (1º).

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O deputado Jean Wyllys (PSol-RJ) - Foto: Luis Macedo | Câmara dos Deputados

Wyllys anunciou na semana passada que abriria mão do seu 3º mandato parlamentar em razão de ameaças de morte que vinha recebendo. No documento endereçado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Wyllys informa, "em caráter irretratável", que não tomará posse no mandato.

Ele acrescenta que as razões estão explicitadas na carta que enviou ao seu partido, o PSol, e que anexou na comunicação à Câmara. Com a renúncia oficial de Wyllys, a Câmara pode a partir de agora tomar as providências para que o seu suplente na vaga, o vereador carioca David Miranda (PSol-RJ), assuma na sexta-feira (1º).

Wyllys está no exterior em um país não informado e disse que não pretende voltar ao Brasil.

Na semana passada, ao anunciar a sua renúncia, Wyllys publicou em uma rede social: "Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que façamos por outros meios!".

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Ofício do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), convocando suplente de Jean Wyllys (PSol-RJ) para assumir vaga - Foto: Reprodução | Diário Oficial da Câmara

Trajetória
Eleito em outubro com 24.295 votos, Wyllys foi o 1º deputado gay assumido e tinha como principais bandeiras pautas relacionadas às causas LGBT e para minorias.

Na Câmara dos Deputados, Wyllys era alvo constante de provocações por parte dos colegas parlamentares e, durante as sessões no plenário e nas comissões, chegou a bater boca diversas vezes com adversários.

O episódio mais polêmico ocorreu durante a votação da abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016. Wyllys cuspiu no então deputado Jair Bolsonaro e foi punido pelo Conselho de Ética da Câmara com uma censura escrita.

À época, Jean Wyllys disse ao jornal "O Globo" que havia cuspido em Bolsonaro porque, após votar contra o prosseguimento do impeachment, Bolsonaro o insultou.

Depois da decisão do Conselho de Ética, Wyllys soltou nota em que afirmava que cuspiu porque teve "uma reação espontânea, humana, contra os xingamentos e agressões que há anos" recebia na Câmara em razão da sua orientação sexual e posições políticas. "O grau de violência, desrespeito e ofensas que recebo desde que estou deputado é intolerável", dizia a nota.

O mesmo fato gerou outras duas representações do PT no Conselho de Ética, contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP).

A primeira representação acusava Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, de ter revidado o cuspe dado em seu pai ao cuspir de volta em Jean Wyllys. A segunda dizia que ele havia editado e divulgado um vídeo que dava a entender que o deputado do PSol havia premeditado o cuspe e não que tivesse sido uma reação. Ambos os processos acabaram arquivados.

Suplente
O 1º suplente de Wyllys é vereador do Rio de Janeiro há 2 anos, David Miranda (PSol-RJ). Ele recebeu 17.356 votos, o equivalente a 0,22% dos válidos, e garantiu a 1ª suplência do PSol, que não fez coligação. Miranda também é ativista gay.

"Nascido na favela do Jacarezinho, parceiro de (Edward) Snowden na luta contra a espionagem na internet e 1º vereador LGBT da história do Rio de Janeiro", assim David Miranda se define na sua página oficial. Casado com o jornalista Gleen Greenwald, dono do site The Intercept, Miranda elegeu-se vereador do Rio de Janeiro, em 2016. "David Miranda é cria do Jacarezinho, negro, favelado e LGBT. Nunca conheceu seu pai e aos 5 anos ficou órfão de sua mãe", diz outro texto no site oficial.

David Michael dos Santos Miranda tem 33 anos e declarou ter a cor/raça preta à Justiça eleitoral nas eleições do ano passado. Na época da repercussão das revelações de Snowden, que tornou público o esquema de espionagem do governo dos Estados Unidos, Miranda chegou a ficar preso durante 9 horas, em agosto de 2013, em um aeroporto de Londres. Ele prestou depoimento porque estava com documentos do ex-agente de inteligência norte-americano.

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David Miranda, do PSol, foi eleito vereador do Rio em 2016 e agora vai assumir a cadeira deixada por Jean Wyllys na Câmara dos Deputados Foto: Reprodução | Facebook

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