Sem reconstruir bases sociais, industriais e políticas, a esquerda seguirá administrando a dependência. E o Brasil continuará preso ao papel periférico que o neoliberalismo global lhe reserva.

Marcos Verlaine*

O Brasil está entre a contenção, com o neodesenvolvimentismo, e a necessária ruptura com o neoliberalismo, que pressiona o País para baixo. Este artigo é a necessária continuidade deste: “Entre a caricatura e a realidade: o lugar incômodo do Lula 31”, que recomendo a leitura.

Este é o debate sobre o terceiro governo Lula (PT), que frequentemente se perde em classificações superficiais. Ora acusado de “neoliberal” por setores da esquerda, ora tratado como ameaça “socialista” pela direita e extrema-direita, o Lula 3 permanece situado em zona intermediária: a do neodesenvolvimentismo.

Essa definição ajuda a compreender o governo, mas já não basta para responder ao desafio histórico colocado diante do País. O problema central deixou de ser apenas interpretar corretamente o caráter do governo.

A questão decisiva passa a ser outra: até onde o neodesenvolvimentismo consegue ir nesse capitalismo financeirizado, dependente e cada vez mais subordinado às dinâmicas globais de concentração econômica e tecnológica?

A resposta parece cada vez mais evidente: seus limites estruturais estão se aproximando do esgotamento.

O neodesenvolvimentismo cumpre função defensiva. Mitigar danos sociais do neoliberalismo, recompor parcialmente a capacidade do Estado, recuperar políticas redistributivas e tentar preservar alguma margem de soberania nacional. Mas não altera a inserção subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho.

O País continua sendo exportador de commodities, reprimarizando a economia, oferecendo mão de obra barata e ampliando a dependência tecnológica e financeira diante das grandes potências centrais.

Especialmente dos Estados Unidos.

Nesse sentido, o neodesenvolvimentismo opera mais como contenção da regressão do que como estratégia efetiva de transformação nacional.

 

Limite histórico da conciliação

O problema não é trivial. O Brasil vive há décadas sob padrão de capitalismo dependente cuja lógica central combina desindustrialização, financeirização e baixa capacidade estatal de planejamento de longo prazo.

Mesmo quando governos progressistas conseguem ampliar investimento social ou estimular crescimento econômico, fazem isso sem romper os pilares estruturais que sustentam essa dependência.

É precisamente aí que reside a contradição do lulismo contemporâneo, neste Lula 3, que em caso de novo mandato precisa de passo adiante.

Ao optar reiteradamente pela conciliação ampla — com frações do mercado financeiro, do agronegócio exportador e de setores conservadores do sistema político — o campo progressista consegue estabilidade relativa, mas reduz a capacidade de mobilização social e de construção de hegemonia transformadora.

A governabilidade é preservada. O horizonte estratégico, porém, se estreita, cada vez mais.

Isso ajuda a explicar a natureza pendular do Lula 3: avanços sociais limitados convivem com austeridade fiscal; discurso soberanista convive com forte dependência do capital financeiro; políticas industriais reaparecem, mas sem densidade suficiente para reconstruir o parque produtivo nacional.

O resultado é um governo permanentemente tensionado entre a necessidade de responder às urgências sociais e os limites impostos pelas estruturas do capitalismo contemporâneo dependente e subordinado ao imperialismo.

 

Sem base social organizada, não há desenvolvimentismo

O desenvolvimentismo clássico do século 20 — com todas as suas contradições — apoiava-se em bases materiais e políticas mais robustas: industrialização acelerada, expansão do emprego formal, fortalecimento sindical e capacidade estatal de coordenação econômica.

Hoje, boa parte dessas bases foi desmantelada.

A precarização do trabalho, a fragmentação sindical, a financeirização da economia e a hegemonia ideológica neoliberal reduziram drasticamente a capacidade de organização popular e de formulação de projeto nacional desenvolvimentista consistente.

Por isso, a superação do neodesenvolvimentismo não depende apenas de vontade política ou vitória eleitoral. Exige reconstrução profunda de bases sociais, econômicas e institucionais.

Sem reorganização do trabalho, fortalecimento das organizações populares, recuperação da capacidade industrial e ampliação da soberania tecnológica, qualquer projeto progressista continuará operando dentro de margens extremamente estreitas.

Em outras palavras: não haverá retomada efetiva do desenvolvimentismo sem conflito distributivo e sem enfrentamento — ainda que gradual — aos mecanismos estruturais da dependência.

 

Risco da administração permanente da crise

O desafio se torna ainda maior porque o cenário internacional mudou profundamente. O mundo vive nova disputa geopolítica, avanço do protecionismo nas grandes potências e crescente corrida tecnológica baseada em inteligência artificial, energia, dados e semicondutores.

Nesse ambiente, países periféricos que não reconstruírem capacidade produtiva própria tendem a aprofundar a subordinação.

O risco brasileiro é tornar-se exportador sofisticado de produtos primários enquanto importa tecnologia, capital e plataformas digitais de alto valor agregado.

Isso significa crescimento limitado, vulnerabilidade externa permanente e aprofundamento crescente das desigualdades sociais.

Nesse contexto, o neodesenvolvimentismo pode até reduzir tensões sociais temporariamente, mas dificilmente conseguirá alterar o padrão estrutural de dependência.

Seu horizonte tende a ser o da administração da crise. Não o da transformação nacional.

 

Democracia, soberania e projeto nacional

Nada disso significa desprezar a importância do embate atual entre democracia e autoritarismo. A ameaça representada pela extrema-direita permanece concreta e estrutural. Eventual retorno do bolsonarismo, não tenha dúvida, significaria o aprofundamento radical do neoliberalismo associado à corrosão institucional e democrática, rumo a um tipo de governo autoritário, de caráter fascista.

Mas justamente por isso o campo progressista precisará ir além da simples resistência defensiva.

Seja em eventual quarto mandato de Lula, seja na oposição, governo e esquerda terão de enfrentar questão estratégica incontornável: construir as condições políticas e sociais para superar os estreitos limites do neodesenvolvimentismo.

Não se trata de nostalgia do passado nem de retorno mecânico ao nacional-desenvolvimentismo do século passado. O desafio contemporâneo é mais complexo: combinar democracia, soberania, reindustrialização, transição ecológica e inclusão social em ambiente global digital e hostil.

Sem isso, o Brasil continuará preso ao papel histórico que o capitalismo dependente lhe reserva: fornecedor de commodities, exportador de trabalho barato e consumidor subordinado de tecnologia produzida no centro do sistema capitalista.

O verdadeiro debate do próximo ciclo político talvez não seja apenas quem governa o País, mas qual projeto nacional ainda será possível construir antes que a dependência se torne irreversível.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar e redator do HP

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1 Entre a caricatura e a realidade: o lugar incômodo do Lula 3 - https://vermelho.org.br/coluna/entre-a-caricatura-e-a-realidade-o-lugar-incomodo-do-lula-3/

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