Três verbos para vencer a eleição presidencial em 2026
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Antônio Augusto de Queiroz*
Um estudo realizado pela Ativaweb Lab, do analista Alek Maracajá, com base em metodologia de Big Data, análise semântica e clusterização de audiência, comparou os perfis de Lula, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado no Instagram – a rede social mais popular do Brasil – e chegou a uma conclusão central que desafia o senso comum do marketing político: no ambiente digital, a eleição de 2026 não será decidida por volume de seguidores ou por altas taxas de engajamento, mas por quem consegue mobilizar eleitores fora da sua base original. E, segundo o estudo, Lula tem o trunfo que nenhum adversário consegue replicar no curto prazo.
De acordo com os dados levantados por Alek Maracajá, o cenário digital para 2026 já tem seus contornos definidos. Lula lidera com 14,5 milhões de seguidores, mas apresenta engajamento de apenas 0,38% e crescimento mensal de 0,14%. Flávio Bolsonaro tem 9,7 milhões de seguidores, engajamento de 1,25% e crescimento de 4,35% ao mês. Já Ronaldo Caiado aparece distante, com 2,1 milhões de seguidores, 0,39% de engajamento e crescimento de 1,68%. À primeira vista, os números de Flávio assustam. Mas o estudo da Ativaweb Lab faz um alerta importante: alto desempenho dentro de um ecossistema fechado não se traduz em vitória eleitoral. A audiência de Flávio é ideológica, masculina, fiel e reativa – uma câmara de eco bem organizada, mas com baixíssima penetração fora da bolha da direita. Em outras palavras, Flávio ganha o feed, mas tem teto eleitoral claro. Já Caiado, segundo a análise, aproveita rachas na direita e tem força regional em Goiás, mas seu crescimento é lento e sua penetração nacional é muito baixa. Hoje, ele não disputa em escala nacional.
O grande diferencial de Lula, aponta Alek Maracajá, não está nos números brutos de engajamento, mas na sua capacidade estrutural de atravessar bolhas. O presidente tem três ativos que nenhum adversário consegue replicar no curto prazo: capilaridade nacional, com presença consolidada em todas as regiões, classes e culturas; diversidade de público, incluindo maioria feminina (61,5% da base), jovens, nordestinos e periferia urbana; e autoridade institucional, como presidente em exercício e liderança histórica reconhecida. O estudo da Ativaweb Lab chama atenção para o que classifica como "paradoxo dos dados": Lula tem menor engajamento proporcional, mas maior alcance estrutural. Isso acontece porque sua audiência diversa tem menor uniformidade ideológica e, portanto, reage menos de forma automática. Mas justamente por isso, o potencial de mobilização subexplorado é gigantesco. Como resume Alek Maracajá, "Lula não depende de algoritmo, depende de narrativa. Seu desafio não é crescer audiência – é ativar a audiência que já tem."
No entanto, o estudo não esconde os problemas. A comunicação digital de Lula hoje, segundo a Ativaweb Lab, sofre de quatro gargalos graves: é excessivamente institucional, falando como governo e não como liderança; tem baixa ativação emocional, o que é punido pelos algoritmos; faz pouco uso do Lula falando de sua trajetória pessoal, deixando de explorar a história de vida do presidente como ativo simbólico; e é previsível, sem elementos de surpresa que impulsionam crescimento orgânico. O diagnóstico síntese do estudo é duro, mas preciso: "Muito assistido. Pouco reagido. A audiência consome, mas não amplifica."
A boa notícia para Lula, segundo Alek Maracajá, é que todos esses problemas têm solução com um reposicionamento estratégico viável em alguns meses. O estudo propõe uma mudança de eixo clara: sair da comunicação de governo, formal e distante, e migrar para uma liderança humana, popular e próxima, usando a cultura e os símbolos do povo brasileiro. Três públicos são apontados como prioritários para expansão: os jovens de 18 a 34 anos, que são a maior geração de eleitores e respondem a formatos curtos e autênticos; a periferia urbana, território historicamente lulista mas que hoje está disputado e requer reconexão emocional; e o público feminino, que já é maioria na base de Lula e pode crescer ainda mais com narrativas de cuidado, segurança e futuro.
O estudo da Ativaweb Lab projeta três cenários para 2026. No cenário atual, de inércia, Flávio domina o engajamento e Lula domina o alcance, formando um equilíbrio instável no qual o presidente chegaria à eleição com grande base, mas sem eficiência de conversão – o que representa risco real. Já no cenário com ajuste estratégico, o recomendado pelo estudo, Lula passa a dominar alcance, engajamento e narrativa simultaneamente, convertendo sua base existente em movimento real e sustentado. A diferença entre um cenário e outro, segundo Alek Maracajá, não é investimento em impulsionamento pago, mas coragem criativa para abandonar o tom institucional e abraçar o humano.
O encerramento do estudo sintetiza a tese em três verbos para 2026: ativar, para transformar seguidores passivos em audiência engajada; emocionar, com o Lula contando sua própria história, com gatilhos emocionais que o algoritmo premia; e mobilizar, para converter engajamento digital em movimento organizado nas ruas e nas redes. A frase final de Alek Maracajá resume o espírito da análise: "Quem tem povo não precisa buscar audiência, precisa despertar o movimento. O Brasil já segue Lula. O que falta é fazê-lo reagir." O estudo conclui que a eleição de 2026 não será decidida por quem tem mais seguidores ou maior taxa de engajamento, mas por quem consegue transformar audiência em ação – e nesse jogo, Lula começa à frente, desde que sua comunicação pare de falar como governo e volte a falar como Lula.
(*) Jornalista, consultor, analista político e mestre em políticas públicas e governo pela FGV. Foi direto de documentação do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). É membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República – Conselhão. Especialista em instituições políticas e processo legislativo, é autor de diversos artigos e livros sobre a dinâmica do poder no Brasil.
