O Brasil real rejeita precarização: 56% querem voltar à CLT e empreendem por falta de opção
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Pesquisa Vox Populi/CUT desmonta o mito da “flexibilidade” e revela que o trabalhador brasileiro busca estabilidade, direitos e proteção social. Não pejotização.
Marcos Verlaine*
A contrarreforma trabalhista prometeu liberdade, mas só entregou insegurança. É o que revela a realidade dos dados e fatos.
Desde a Reforma Trabalhista — Lei 13.467/17 —, vendeu-se ao País narrativa sedutora: flexibilizar seria modernizar; reduzir direitos seria abrir portas; transformar trabalhadores em “empreendedores” seria libertá-los das “amarras” da CLT. Doce ilusão, que vai completar quase 1 década.
O que se consolidou, no entanto, foi processo mais duro e profundo: a corrosão do Direito do Trabalho como instrumento civilizatório.
O “negociado sobre o legislado” — apresentado como avanço — tornou-se, em muitos casos, o eufemismo jurídico de desequilíbrio brutal. Quando o trabalhador negocia sozinho diante do poder econômico, o que existe não é negociação: é imposição.
A Reforma Trabalhista está no campo do pensamento econômico neoliberal1, que é o fascismo na economia. Atenção: não o confunda com liberalismo2, pois são conceitos econômicos distintos. O primeiro, trocando em miúdos, é a radicalização do segundo.
Pejotização: nome elegante da precariedade
A pejotização virou símbolo do nosso tempo. País em que se trabalha como empregado, mas sem ser reconhecido como tal.
É o contrato sem proteção. É o salário sem estabilidade. É o presente sem futuro.
O trabalhador vira CNPJ, mas continua sendo gente: adoece, envelhece, precisa de férias, descanso, Previdência, perspectiva. Tudo que como PJ esse trabalhador não tem ou terá.
O que se chama “flexibilidade” é, frequentemente, apenas precariedade com marketing.
Brasileiro quer proteção
A pesquisa “O Trabalho no Brasil”, realizada pelo Instituto Vox Populi a pedido da CUT, desmonta o mito central do discurso neoliberal: o de que o trabalhador brasileiro deseja a informalidade como escolha.
Os dados são claros e reveladores:
- 56% dos autônomos que já tiveram carteira assinada querem voltar à CLT, para recuperar benefícios e segurança.
- 70% consideram os sindicatos fundamentais e reconhecem a greve como direito legítimo.
- A maioria empreende por sobrevivência, não por vocação.
- 64,7% vivem sem estabilidade financeira.
O brasileiro não está pedindo menos direitos. Está pedindo um chão para se equilibrar e viver. E não apenas sobreviver.
Trabalho precário é ausência de futuro
A precarização não é apenas econômica: é existencial.
Trabalhador sem direitos não consegue planejar a vida. Não compra casa. Não estuda. Não forma família. Não tem descanso. Não tem amanhã.
O trabalho precário produz uma sociedade precária — e um país permanentemente suspenso —, que vive de bicos e improvisos.
Quando o Direito do Trabalho é desmontado, não se desmonta apenas a legislação: desmonta-se a ideia de futuro coletivo.
Paradoxo 2026: otimismo social, insegurança estrutural
Curiosamente, segundo a pesquisa, o Brasil entra em 2026 com sinais de esperança:
- 83% acreditam que o ano será melhor que 2025.
- 69% esperam melhora na vida pessoal.
- 68% das empresas pretendem contratar, especialmente em tecnologia.
Há, portanto, um clima de retomada.
Mas a pergunta decisiva permanece: retomada para quem?
Se o crescimento vier acompanhado de pejotização, subcontratação e erosão de direitos, o País pode até gerar empregos. Mas não gerará dignidade.
País quer trabalho decente
O Brasil real está dizendo, com números e sentimentos, o que o discurso ideológico neoliberal tenta esconder:
O trabalhador não quer ser descartável. Não quer ser “parceiro” sem direitos. Não quer negociar a sobrevivência. Quer estabilidade, proteção e tempo para viver.
O futuro do trabalho não pode ser o retorno ao século 19 com aplicativos e contratos frágeis.
O Brasil precisa de agenda que recoloque o trabalho no centro. Não como mercadoria, mas como direito.
Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas a legislação trabalhista.
É o próprio sentido de sociedade.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Neoliberalismo é um conjunto de políticas econômicas e teorias sociais que defende a redução do papel do Estado na economia, a livre iniciativa, a desregulamentação de direitos e a privatização. Ganhou força a partir dos anos 1970/1980. Diferentemente do liberalismo clássico, considera o mercado construção política que deve guiar as relações sociais.
2 Liberalismo é uma corrente teórica, política e econômica surgida entre os séculos 16 e 18, influenciada pelo Iluminismo, que defende as liberdades individuais, o direito à propriedade privada, a democracia e o livre mercado. Propõe a limitação da intervenção estatal na economia e na vida social. Todavia, não rejeita o Estado como um dos indutores do desenvolvimento.
