“Paz entre nós, guerra aos senhores”: lema que a esquerda parece ter esquecido e precisa reaprender

Entre a fragmentação social e a concentração de poder, a velha consigna operária expõe o que falta: unidade entre os de baixo e o enfrentamento real às estruturas que perpetuam desigualdades.

 Marcos Verlaine*

Trata-se, pois, de 1 lema e 2 direções. “Paz entre nós, guerra aos senhores” não é chamado à violência gratuita, como frequentemente se tenta caricaturar. É, antes de tudo, síntese política poderosa: unidade entre os explorados e enfrentamento das estruturas de dominação, cada vez mais ousadas e intensas.

Lema e chamamento insubmissos e potentes, que a esquerda brasileira precisa resgatar.

De um lado, a paz. Não como passividade, mas como solidariedade ativa entre os trabalhadores. De outro, a guerra. Não literal, mas política e social contra os mecanismos que concentram riqueza e poder nas mãos de poucos.

O problema é que a esquerda contemporânea ocidental parece ter invertido essa lógica.

FRAGMENTAÇÃO DOS DE BAIXO

Nunca houve tanta desunião entre àqueles que compartilham condições semelhantes de vida. Trabalhadores precarizados, informais, assalariados e desempregados são empurrados para disputas internas.

Muitas vezes alimentadas por identidades fragmentadas ou por narrativas que deslocam o foco do conflito estrutural.

A “paz entre nós” foi substituída por desconfiança, competição e isolamento. O resultado é uma classe trabalhadora incapaz de se reconhecer como tal. E, portanto, incapaz de agir coletivamente.

Sem essa base, qualquer projeto de transformação social se torna inviável.

BLINDAGEM DOS “SENHORES”

Enquanto isso, os “senhores” — expressão que hoje pode ser traduzida como elites econômicas, financeiras e políticas — operam com alto grau de coesão. Defendem interesses comuns, influenciam decisões de Estado e moldam a opinião pública.

A concentração de renda no Brasil não é acidente. É resultado de arranjo histórico que se atualiza, incorporando novas formas de exploração sem abrir mão de velhos privilégios.

Sem enfrentamento político — a “guerra” do lema — esse sistema se perpetua com impressionante estabilidade.

DA CANÇÃO À REALIDADE

O lema ganhou força na tradição operária internacional a partir da obra de Eugène Pottier e ecoou no Brasil, na esquerda, do início do século 20, especialmente em jornais anarquistas como A Plebe e Guerra Sociale, que mobilizaram trabalhadores contra a carestia e a exploração.

Naquele contexto, a frase não era retórica: era prática. Organizava greves, articulava solidariedade e confrontava diretamente o poder econômico.

Hoje, sua potência permanece. Mas sua aplicação se diluiu.

DOMESTICAÇÃO DO CONFLITO

Parte dessa diluição se deve à institucionalização das lutas sociais. Ao longo do tempo, o conflito de classes foi sendo canalizado para formas mais controladas, muitas vezes reduzidas à negociação pontual ou à disputa eleitoral.

Isso não é irrelevante, mas é insuficiente. Quando o enfrentamento estrutural desaparece, o sistema deixa de ser questionado. E passa apenas a ser administrado.

O lema, então, perde seu sentido original e se transforma em peça de museu.

ATUALIZAR SEM DILUIR

Recuperar “paz entre nós, guerra aos senhores” não significa repetir fórmulas do passado, mas atualizar o conteúdo. Hoje, os “senhores” não são apenas industriais ou latifundiários: incluem grandes conglomerados financeiros, plataformas digitais e estruturas globais de poder.

Da mesma forma, os “nós” são mais diversos e fragmentados. A construção de unidade exige reconhecer diferenças sem perder o eixo comum: a desigualdade estrutural.

Isso demanda organização, formação política e capacidade de articulação: elementos essenciais cada vez mais escassos.

ENTRE A RESIGNAÇÃO E A AÇÃO


O Brasil vive contradição evidente: convive com níveis extremos de desigualdade, mas com baixa capacidade de mobilização social contínua contra esse estado de coisas.

Sem “paz entre nós”, não há base coletiva. Sem “guerra aos senhores”, não há transformação. O que resta é a gestão permanente de crises, com pequenos ajustes que não alteram o essencial, a estrutura.

LEMA AINDA NECESSÁRIO E ATUAL

Mais de 1 século depois, a consigna segue atual. Talvez, agora, mais do que nunca. Não como palavras de ordem vazias, mas como diagnóstico e orientação.

Unir os de baixo. Enfrentar os de cima. Simples na formulação, complexo na execução e absolutamente indispensável para qualquer projeto que pretenda ir além da superfície.

O Brasil e a esquerda não carecem de slogans. Carecem de coragem política para dar conteúdo real a esses.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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