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Entre a caricatura da direita e a frustração da esquerda, o Planalto opera projeto social-liberal sob forte e permanente tensão.

Trata-se de frente ampla como método. E limite. Assim é o terceiro mandato de Lula (PT), que não nasceu de maioria ideológica homogênea, mas de necessidade histórica: derrotar o bolsonarismo — o neofascismo brasileiro — e reconstruir pontes institucionais.

O resultado foi a construção de coalizão que vai da esquerda tradicional a partidos de centro e centro-direita, como MDB, PSD e União Brasil.

Esse arranjo político e social confere ao governo caráter de frente ampla e social-liberal. Não se trata de governo de esquerda clássica, muito menos de experimento de radicalização. Trata-se de engenharia política orientada à governabilidade sob um Congresso fragmentado e majoritariamente conservador, onde o governo não tem maioria.

A direita e a extrema-direita preferem ignorar essa composição heterogênea para sustentar a narrativa de que o País estaria sob “governo esquerdista” e/ou “radical”. Essa caricatura cumpre função mobilizadora.

Simplifica o cenário, alimenta antagonismos e mantém viva a chamada polarização, que só existe para a extrema-direita.

Economia híbrida: entre o fiscal e o desenvolvimentismo

No plano econômico, o governo adotou modelo híbrido. De um lado, apresentou o novo arcabouço fiscal, acenando ao mercado com previsibilidade e compromisso com equilíbrio das contas públicas.

De outro, retomou a ideia de que o Estado deve induzir o crescimento por meio de investimento público, crédito e políticas industriais, que são traços de neokeynesianismo1 adaptado à realidade brasileira.

Essa combinação é desconfortável para os extremos. Para a direita neoliberal (ortodoxa), qualquer protagonismo estatal soa intervencionista. Para setores da esquerda, a ênfase em metas fiscais e diálogo com o mercado representa concessão excessiva.

O que emerge não é ruptura com a lógica econômica vigente, mas tentativa de reequilibrá-la: responsabilidade fiscal com política social ativa. Arranjo que busca estabilidade macroeconômica sem abrir mão da redução das desigualdades.

Agenda social progressista em ambiente conservador

Se a economia é híbrida, a agenda social é nitidamente progressista. O governo retomou programas como o Bolsa Família e reforçou pautas ligadas a direitos humanos, diversidade e proteção ambiental. Nesse campo, há coerência histórica com a trajetória do presidente.

Mas também aqui a governabilidade impõe freios. A presença de partidos de centro e centro-direita na base exige negociação contínua e moderação de iniciativas mais ousadas. É o “morde e assopra” permanente.

O Executivo mede cada passo para evitar derrotas legislativas que fragilizem o conjunto da agenda.

A esquerda crítica cobra radicalização: reforma tributária mais agressiva, enfrentamento estrutural ao rentismo, mudanças profundas no modelo econômico. Contudo, tais movimentos exigiriam correlação de forças que o governo simplesmente não possui e que não dá para inventar do dia para a noite.

Política como mediação permanente

O perfil do governo é, portanto, menos ideológico e mais pragmático. Social-liberal na prática: combina inclusão social com compromisso institucional e diálogo com o mercado.

Atua como mediador entre demandas populares e limites impostos pelo Congresso conservador e pela economia ainda financeirizada.

Isso gera frustração difusa. A direita acusa “viés esquerdista” — delírio discursivo — que os números fiscais não confirmam. Parte da esquerda acusa moderação excessiva que o tabuleiro político explica e a correlação de forças explicita.

O governo Lula 3 é, acima de tudo, um governo de contenção: contém impulsos autoritários remanescentes, contém pressões por austeridade extrema e contém expectativas de transformação acelerada. Move-se por incrementalismo2, não por ruptura.

Entre o possível e o desejável

Definir o atual governo como “de esquerda” ou “de centro” é reduzir sua complexidade. Esse é produto de conjuntura excepcional, estruturado para preservar estabilidade democrática e produzir avanços graduais, nos limites impostos pelo Congresso de maioria conservadora e mercado arisco às mudanças impostas pelo desenvolvimento tecnológico.

Note como a chamada “maioria empresarial” nas Casas do Congresso tem se posicionado diante do debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

A pergunta central não é se o governo é suficientemente ideológico, mas se sua estratégia de centro ampliado consegue entregar crescimento, reduzir desigualdades e manter a institucionalidade funcionando.

Seu êxito ou fracasso será medido menos pelo rótulo que lhe atribuem e mais pela capacidade de transformar mediação em resultado concreto.

No Brasil de hoje, governar é equilibrar pratos em movimento. O terceiro mandato de Lula escolheu fazê-lo pelo caminho da moderação estratégica. Trata-se, pois, de opção que desagrada aos polos, mas que talvez seja a única viável no terreno real da política nacional neste momento histórico.

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1 O neokeynesianismo, ou síntese neoclássica é escola de pensamento econômico do pós-guerra que integra a macroeconomia de John Maynard Keynes — focada e orientada em demanda e intervenção estatal — com a microeconomia neoclássica — focada em livre mercado e preços. Desenvolvida por Paul Samuelson e outros, defende a regulação estatal para corrigir falhas de mercado e evitar o agravamento de problemas sociais.

2 O incrementalismo é uma teoria de tomada de decisão e formulação de políticas públicas que defende mudanças graduais, pequenas e contínuas, em vez de reformas estruturais ou radicais. Proposto por Charles Lindblom, o método foca no ajuste de políticas existentes, sendo politicamente conveniente, estável e fruto de adaptação mútua entre diversos atores.

 

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