A privatização da Celg e a reforma da Previdência: o que elas têm em comum?

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O que existe de comum entre a proposta de privatização da Celg e a reforma da Previdência é que ambas contrariam o discurso de campanha, afrontam a base social do governo, e poderá levar à ruptura dos movimentos sociais com a presidente.

Antônio Augusto de Queiroz*

A legitimidade dos governos do presidente Lula veio dos programas sociais e do freio às privatizações. A presidente Dilma, em seu segundo mandato, tem feito o contrário disso.

Ao incluir a Companhia Energética de Goiás (Celg), atualmente sob controle do governo federal, no programa de privatização e ao anunciar uma nova reforma da Previdência Social, após ter feito ajustes nas pensões, o governo da presidente Dilma tem afrontado sua base social.

É praticamente consenso nos movimentos sociais e sindicais a rejeição a essas duas propostas governamentais, que fazem parte do receituário neoliberal e que precisam ser revistas, sob pena de rompimento da base social.

A luta contra a privatização da Celg conta com o apoio de entidades e movimentos sociais, como Frente Brasil Popular, Frente Nacional de Mobilização Povo Sem Medo, CUT, CNU (Confederação Nacional dos Urbanitários), FNU (Federação Nacional dos Urbanitários), FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), Fisenge (Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros), Frune (Federação Regional do Nordeste), CNE (Coletivo Nacional dos Eletricitários), entre outras.

A reforma da Previdência Social, por sua vez, é rechaçada por 90% dos trabalhadores, segundo pesquisa da CUT, além de rejeitada pelos movimentos sindicais e sociais.

Com a privatização da Celg, que terá como primeira consequência a demissão de trabalhadores e o aumento das tarifas de energia, entrega-se a maior empresa do estado de Goiás a particulares, portanto um patrimônio estratégico para o desenvolvimento do estado, além de assegurar caixa ao governador de Goiás, atualmente detentor de 49% das ações da empresa, considerado um adversário histórico dos governos do PT e em especial do presidente Lula, a quem, acintosamente, voltou a chamar de canalha no ano passado.

Já com a reforma da Previdência Social, especialmente o aumento da idade mínima e a equiparação de idade e de tempo de serviço entre homens e mulheres, que prejudicará os mais pobres que começaram a trabalhar mais cedo, o governo pode anular os efeitos positivos da adoção da fórmula 85/95, além de não atrair o almejado apoio do mercado.

A batalha contra a privatização da Celg, que parecia ser algo localizado, já está nas ruas, está nacionalizada e já é campal, com uma tendência de ficar cada vez mais radicalizada. E isso aponta para qual deve ser o tom que os movimentos sindical e social darão para barrar a reforma da Previdência

Assim, o que existe de comum entre a proposta de privatização da Celg e a reforma da Previdência é que ambas contrariam o discurso de campanha, afrontam a base social do governo, e poderá levar à ruptura dos movimentos sociais com a presidente.

Logo, ou governo rever essas duas decisões, revogando o decreto de privatização da Celg e desistindo de propor mais uma reforma da Previdência com corte de direitos, ou o desgaste e o risco de ruptura com os movimentos sindicais e sociais serão reais. A forma de evitar isso é Dilma mudar de opinião. Mas quem a convencerá disso: o presidente Lula?

(*) Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap

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