O povo despreza o Congresso, os partidos e a imprensa. Por quê?

Share

As instituições mais confiáveis ou bem avaliadas hoje, segundo pesquisa, são: bombeiros (29,1%), igreja (25,8%), Forças Armadas (11,7%) e polícia (7,1%). Esses dados revelam, em grande medida, a atual onda conservadora e punitivista em curso na sociedade brasileiro.

Marcos Verlaine*

Há uma marcha batida da insensatez em curso, não é de hoje. Pesquisa da CNT/MDA divulgada na última quarta-feira (22) revela o declínio e a perda contínua de prestígio e de confiança nas instituições democráticas pela ampla maioria da população brasileira. A pesquisa traz muitos dados relevantes, mas analisarei apenas e tão somente aqueles relacionados ao enfraquecimento da tenra e frágil democracia brasileira. A pesquisa do instituto MDA, para a CNT (Confederação Nacional do Transporte), ouviu 2.002 pessoas entre os dias 15 e 18 de janeiro, em 137 municípios de 25 unidades da Federação.

pesquisa cnt mda janeiro 20

A pesquisa revela, em ordem crescente, o nível de confiança da população em instituições como bombeiros, igreja, Forças Armadas, polícia, Justiça, governo federal, imprensa, Congresso Nacional e partidos políticos.

Pesquisa do Datafolha de 2018 não foi diferente. Partidos, Congresso e Presidência foram as instituições menos confiáveis do País.

Os dados são assustadores. A maioria da população não acredita nas principais instituições da democracia — Justiça, governo federal, imprensa, Congresso Nacional e partidos políticos. Daí pode-se depreender os riscos que corre a tenra, pois vai completar apenas 31 anos, em 5 de outubro próximo, e frágil democracia brasileira.

As instituições mais confiáveis ou bem avaliadas hoje, segundo a pesquisa, são: bombeiros (29,1%), igreja (25,8%), Forças Armadas (11,7%) e polícia (7,1%). Esses dados revelam, em grande medida, a atual onda conservadora e punitivista em curso na sociedade brasileira.

Justiça
A Justiça, segundo dados da pesquisa CNT/MDA só é bem vista por 5% dos entrevistados. Não é para menos. É tida como elitista, cara e de difícil acesso, sobretudo para os mais pobres (grifo meu). Assim, não é justiça é injustiça! Sem contar os inúmeros casos de corrupção e outros graves desvios de seus representantes que os meios de comunicação de massas noticiam com assiduidade (também grifo meu).

Governo federal
O governo federal, sob o comando de Jair Bolsonaro, tem a confiança de míseros 2,7% dos entrevistados. Este dado revela quão desgastada está a instituição Presidência da República. Ademais agora, com titular que não passa 1 dia sequer sem expor seu despreparo diante dos imensos e complexos problemas do País e da população.

Na titularidade do governo, Temer (2016-2018) governou para o mercado e seus interesses. Seu grande feito foi a aprovação da Reforma Trabalhista (Lei 13.467/17), que retirou inúmeros direitos dos trabalhadores e cuja promessa, 2 anos depois, não vingou. Os poucos empregos gerados pagam mal, são precários, de baixa qualidade e temporários.

A gestão Bolsonaro, presidente eleito sob profundas crises política, econômica, social e ético-moral, que surfa na onda da anti-política, terá como legado a aprovação da Reforma da Previdência (EC 103/19), cujos “direitos previdenciários de servidores e segurados do RGPS são extremamente abrangentes e envolvem sérias restrições ao seu gozo e aquisição”, nos dizeres do consultor do Senado, especialista em Previdência, Luiz Alberto dos Santos.

Imprensa
A imprensa — que em tempos de redes sociais, fenômeno da pós-modernidade tecnológica, da informação instantânea, acessível à parcela expressiva da população, que a usa (a maioria) sem muita reflexão — só é confiável para 2,3% dos entrevistados. Alie-se a isso, o fato de que, segundo pesquisa do DataSenado, “Mais de 80% dos brasileiros acreditam que redes sociais influenciam muito a opinião das pessoas”.

Outra pesquisa, essa do instituto Data Popular revela que a maioria da população, apelidada de “Classe C”, acessa e se informa principalmente pelo Whatsapp (84%), seguido pelo Facebook (72%) e Instagram (52%). Está aí, talvez, parte da informação que explique, em grande medida, a eleição do candidato à presidente da República mais despreparado desde a redemocratização do País, em 1985.

Nem entrarei no mérito — não é o caso — de suas posições tendenciosas, seu unilateralismo e suas inclinações para o poder econômico, em geral contra o povo. Nos debates relativos aos direitos trabalhistas e previdenciários alguém leu (jornal), ouviu (rádio) ou viu (TV) alguma opinião, nos grandes meios, que contradissesse a opinião oficial sobre estes grandes temas de interesse do povo?

Poder Legislativo
O Congresso Nacional — formado por deputados e senadores, os primeiros representantes do povo, os segundos representantes das unidades da Federação, pela pesquisa CNT/MDA —, é confiável por assustador 0,3% dos entrevistados. Daí advém o desprestígio da política — em sua maioria os representantes representam mal, em nível federal, estadual e municipal. Se algum instituto de pesquisa perguntar o que a população acha de “fechar o Congresso” diria que é quase certo que a resposta amplamente majoritária seria para fechar.

Mas, também, é preciso que se diga que há a necessidade de os representantes se qualificarem mais e melhor para exercer as relevantes funções de legisladores, a fim de mais bem representar e elaborar leis que digam mais respeito à realidade do povo.

A contradição fundamental nesse quesito reside no fato de que o Poder Legislativo é o mais democrático em relação aos outros 2 poderes (Executivo e Judiciário), cujos seus representantes, em tese são os mais acessíveis. Há aí uma segunda contradição que é o fato de a eleição para o Congresso ser ampla, direta, secreta e universal. Daí há a necessidade de o eleitor se colocar como corresponsável pela eleição dos representantes do povo (deputados) e dos estados (senadores).

Os chamados “políticos” são vistos pela maioria da população como desonestos, corruptos, perdulários, egoístas e que trabalham pouco ou não trabalham nada ou que trabalham apenas pelos seus próprios interesses (grifo meu).

Aprovaram, em 2017, a Reforma Trabalhista, com discurso falacioso que geraria mais empregos. E, em 2019, a Reforma da Previdência, para “corrigir distorções” nos regimes previdenciários e deitar por terra os “privilégios”. São 2 antirreformas que prejudicaram profundamente o povo, sobretudo os mais pobres. A maioria dos congressistas legisla para o mercado e seus interesses. Basta pesquisa simples para se chegar a esta conclusão.

Assim, talvez a conclusão mais assertiva sobre esse dado seja o fato de que a maioria dos eleitores não tem sabido votar ou que as informações disponíveis sobre os candidatos não têm sido observadas com mais cuidados e rigores por parte dos eleitores.

Partidos políticos
Por fim, mas não menos importante, a pesquisa revela, como dado complementar do baixíssimo nível de confiança no Congresso Nacional, que os partidos políticos têm a confiança de míseros 0,2% dos entrevistados. Isto é preocupante, pois essas instituições são um dos pilares da democracia representativa, cuja imagem, por sua vez também está bastante desgastada.

Os partidos, que representam partes da sociedade, por isso o nome “partido”, são a amalgama que enfeixam a representação política, nas democracias representativas, e buscam o poder político, a fim de, teoricamente, colocar em prática sua visão de mundo.

Para resolver esse quadro profundamente preocupante e ameaçador contra a democracia brasileira e suas instituições é preciso tomar muitas e variadas providências.

Essas, seguramente, passam por mais educação política da população por parte do Estado e das instituições, aí incluídos os sindicatos, mais transparência e comprometimento com o regime democrático, seguramente o mais complexo e melhor para a população e também por mais engajamento do povo em geral e dos eleitores em particular pela escolha correta dos seus representantes, sob pena de movimentos antidemocráticos, com fachadas democráticas, e discursos moralistas e punitivitas arrebatarem de vez a combalida democracia brasileira.

Em política, sem os devidos cuidados, a roda da história pode girar para traz.

(*) Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap

Nós apoiamos

Nossos parceiros