Lula entrega a Haddad missão de levar PT ao 2º turno

Share

Depois de esticar a decisão oficial até o último momento possível, o Partido dos Trabalhadores (PT) confirmou, nesta terça-feira (11), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como seu candidato à Presidência da República. Haddad assume o lugar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cabeça da chapa petista, com a tarefa de levar o partido ao segundo turno e de mostrar aos eleitores que é o verdadeiro herdeiro político do ex-metalúrgico, preso há 5 meses em Curitiba condenado por corrupção e lavagem de dinheiro e, por isso, impedido de concorrer com base na Lei da Ficha Limpa. A troca ocorreu no último dia do prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que o partido indique o substituto de Lula, cuja inelegibilidade foi declarada em 1º de setembro. No portal El País

lula haddad eleicoes 2018

"Levamos a candidatura de Lula até o limite possível", afirmou ao EL PAÍS um membro da Executiva Nacional do PT, que se reuniu na capital paranaense para sacramentar a unção de Haddad. A decisão oficial do partido foi anunciada na porta da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula está detido desde abril e de onde ele vem conduzindo diretamente a campanha e as negociações políticas. Em cima de um modesto palco, um dos fundadores do PT, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, leu  carta escrita (disponível no final do texto) pelo ex-presidente na qual ele afirmou que teve que tomar uma decisão no limite imposto pela Justiça. Um dos presidentes mais populares da história recente e líder nas pesquisas de intenção de voto para as eleições de outubro capitulava, derrotado pela Operação Lava Jato que o condenou, em nome de não jogar a perder o futuro a possibilidade de recuperação de um partido em crise. "Eu sei que um dia a verdadeira Justiça será feita e será reconhecida minha inocência. E nesse dia eu estarei junto com o Haddad para fazer o Governo do povo e da esperança. Nós todos estaremos lá, juntos, para fazer o Brasil feliz de novo", disse ele, na carta. "Fernando Haddad será Lula para milhões de Brasileiros", complementou. "Até a vitória."

Na sequência, um emocionado Haddad disse sentir "a dor de muitos brasileiros e brasileiras que não verão o presidente que escolheram subir a rampa do Palácio do Planalto”. Exaltou os programas do Governo Lula, com destaque para os de educação que ele usará na campanha, e insistiu na mensagem do partido nos últimos anos, de atribuir às elites do país uma sorte de perseguição contra o PT por causa do rechaço à ascensão social dos mais pobres. Não mostrou a desenvoltura do mentor na hora de discursar: "É hora de sair para a rua de cabeça erguida e ganhar essa eleição. Vamos ganhar por Lula, pelo PT e pelos movimentos sociais", pediu. Ao lado dele estava sua vice Manuela D'Ávila, do PCdoB, a principal sigla aliada na coligação. Manuela, que desistiu de candidatura própria pelo posto, não discursou.

A operação de substituição do maior líder petista pelo ex-ministro da Educação cumpriu um ritual arrastado. Na segunda-feira, Haddad esteve por duas ocasiões com Lula e cancelou sua participação num ato político em São Paulo que estava previsto para a noite. Dormiu em Curitiba e, na manhã desta terça, se encontrou de novo com o ex-presidente. Deixou a prisão com a carta, posteriormente projetada em um telão da reunião da Executiva. Carimbada a troca entre os dirigentes partidários, Haddad e as principais figuras do PT, dentre as quais a ex-presidente Dilma Rousseff, retornaram à Superintendência da Polícia Federal, onde um ato político foi preparado. Tanto a carta lida por Greenhalgh como os militantes que estavam acampados nos arredores da PF em apoio a Lula foram gravados pela campanha para ser usado como material no horário eleitoral.

A decisão coloca um fim no imbróglio da candidatura petista, que nos últimos dias focou em tentar suspender a decisão da Justiça Eleitoral que declarou o ex-presidente inelegível ou em tentar, ao menos, adiar o prazo limite da sucessão. Os advogados do petista usavam como base para os pedidos a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU para que o Brasil garanta os direitos políticos de Lula até o trânsito em julgado de sua sentença. Mas, como era previsto pelo próprio partido, não houve sucesso. Com isso, o PT foi obrigado a desencadear a sucessão, sob pena de descumprir uma decisão da Justiça, o que abriria a brecha para que toda a chapa presidencial fosse questionada e, eventualmente, cassada.

Largada da campanha e divisões internas
Haddad inicia agora, de fato, a campanha eleitoral. Oficialmente, a largada oficial será nesta quarta, com uma reunião da coordenação da candidatura em São Paulo. Ele precisa, ao longo das próximas 3 semanas, sair do patamar de 9% que o coloca embolado no 2º lugar, ao lado de Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB), de acordo com a pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda, para tentar chegar ao segundo turno. Precisa, ainda, mostrar que é o real representante de Lula, especialmente na região Nordeste, onde Ciro Gomes, bastante ligado ao ex-presidente no Ceará, tem conseguido aumentar sua projeção nos últimos meses. Uma de suas dificuldades será a de ultrapassar a imagem de acadêmico paulistano, que por vezes rendeu a ele a pecha de ser um petista tucano. Para isso, o partido investe até o momento na estratégia de focar sua propaganda no número 13 e menos na trajetória política de Haddad.

A demora em indicar o nome petista viável para concorrer as eleições dividiu o partido. A ala de Haddad esperava que isso ocorresse antes, mas havia resistência de outra parte da sigla, especialmente ligada à presidenta da sigla Gleisi Hoffmann que acreditava que era preciso insistir no nome de Lula, para mostrar que o ex-presidente não havia sido abandonado — eles também avaliavam que, assim, a transferência de votos poderia acontecer mais facilmente. A demora também desagradou parte dos aliados. Um integrante da cúpula do PCdoB ouvido pela reportagem criticou a demora na definição em conversa com o repórter Gil Alessi. "Minha avaliação, que é compartilhada por muitos no partido, é de que essa demora foi um erro grave", afirmou. Ainda de acordo com ele, essa indefinição em uma eleição de "tiro curto", devido ao pouco tempo de campanha, ajuda a "pulverizar os votos de Lula entre candidatos do campo da esquerda", disse, citando Ciro Gomes. Mesmo a melhora no desempenho do ex-prefeito na última pesquisa Datafolha não foi vista como um resultado "ótimo": "Temos pouquíssimo tempo para crescer, perdemos um tempo precioso".


"Carta de Lula ao Povo Brasileiro

Meus amigos e minhas amigas,

Vocês já devem saber que os tribunais proibiram minha candidatura a presidente da República. Na verdade, proibiram o povo brasileiro de votar livremente para mudar a triste realidade do país.

Nunca aceitei a injustiça nem vou aceitar. Há mais de 40 anos ando junto com o povo, defendendo a igualdade e a transformação do Brasil num país melhor e mais justo. E foi andando pelo nosso país que vi de perto o sofrimento queimando na alma e a esperança brilhando de novo nos olhos da nossa gente. Vi a indignação com as coisas muito erradas que estão acontecendo e a vontade de melhorar de vida outra vez.

Foi para corrigir tantos erros e renovar a esperança no futuro que decidi ser candidato a presidente. E apesar das mentiras e da perseguição, o povo nos abraçou nas ruas e nos levou à liderança disparada em todas as pesquisas.

Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sergio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados.

Minha condenação é uma farsa judicial, uma vingança política, sempre usando medidas de exceção contra mim. Eles não querem prender e interditar apenas o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Querem prender e interditar o projeto de Brasil que a maioria aprovou em quatro eleições consecutivas, e que só foi interrompido por um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu crime de responsabilidade, jogando o país no caos.

Vocês me conhecem e sabem que eu jamais desistiria de lutar. Perdi minha companheira Marisa, amargurada com tudo o que aconteceu a nossa família, mas não desisti, até em homenagem a sua memória. Enfrentei as acusações com base na lei e no direito. Denunciei as mentiras e os abusos de autoridade em todos os tribunais, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU, que reconheceu meu direito de ser candidato.

A comunidade jurídica, dentro e fora do país, indignou-se com as aberrações cometidas por Sergio Moro e pelo Tribunal de Porto Alegre. Lideranças de todo o mundo denunciaram o atentado à democracia em que meu processo se transformou. A imprensa internacional mostrou ao mundo o que a Globo tentou esconder.

E mesmo assim os tribunais brasileiros me negaram o direito que é garantido pela Constituição a qualquer cidadão, desde que não se chame Luiz Inácio Lula da Silva. Negaram a decisão da ONU, desrespeitando do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos que o Brasil assinou soberanamente.

Por ação, omissão e protelação, o Judiciário brasileiro privou o país de um processo eleitoral com a presença de todas as forças políticas. Cassaram o direito do povo de votar livremente. Agora querem me proibir de falar ao povo e até de aparecer na televisão. Me censuram, como na época da ditadura.

Talvez nada disso tivesse acontecido se eu não liderasse todas as pesquisas de intenção de votos. Talvez eu não estivesse preso se aceitasse abrir mão da minha candidatura. Mas eu jamais trocaria a minha dignidade pela minha liberdade, pelo compromisso que tenho com o povo brasileiro.

Fui incluído artificialmente na Lei da Ficha Limpa para ser arbitrariamente arrancado da disputa eleitoral, mas não deixarei que façam disto pretexto para aprisionar o futuro do Brasil.

É diante dessas circunstâncias que tenho de tomar uma decisão, no prazo que foi imposto de forma arbitrária. Estou indicando ao PT e à Coligação "O Povo Feliz de Novo" a substituição da minha candidatura pela do companheiro Fernando Haddad, que até este momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente.

Fernando Haddad, ministro da Educação em meu governo, foi responsável por uma das mais importantes transformações em nosso país. Juntos, abrimos as portas da Universidade para quase 4 milhões de alunos de escolas públicas, negros, indígenas, filhos de trabalhadores que nunca tiveram antes esta oportunidade. Juntos criamos o Prouni, o novo Fies, as cotas, o Fundeb, o Enem, o Plano Nacional de Educação, o Pronatec e fizemos quatro vezes mais escolas técnicas do que fizeram antes em cem anos. Criamos o futuro.

Haddad é o coordenador do nosso Plano de Governo para tirar o país da crise, recebendo contribuições de milhares de pessoas e discutindo cada ponto comigo. Ele será meu representante nessa batalha para retomarmos o rumo do desenvolvimento e da justiça social.

Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad.

Ao lado dele, como candidata a vice-presidente, teremos a companheira Manuela D'Ávila, confirmando nossa aliança histórica com o PCdoB, e que também conta com outras forças, como o PROS, setores do PSB, lideranças de outros partidos e, principalmente, com os movimentos sociais, trabalhadores da cidade e do campo, expoentes das forças democráticas e populares.

A nossa lealdade, minha, do Haddad e da Manuela, é com o povo em primeiro lugar. É com os sonhos de quem quer viver outra vez num país em que todos tenham comida na mesa, em que haja emprego, salário digno e proteção da lei para quem trabalha; em que as crianças tenham escola e os jovens tenham futuro; em que as famílias possam comprar o carro, a casa e continuar sonhando e realizando cada vez mais. Um país em que todos tenham oportunidades e ninguém tenha privilégios.

Eu sei que um dia a verdadeira Justiça será feita e será reconhecida minha inocência. E nesse dia eu estarei junto com o Haddad para fazer o governo do povo e da esperança. Nós todos estaremos lá, juntos, para fazer o Brasil feliz de novo.

Quero agradecer a solidariedade dos que me enviam mensagens e cartas, fazem orações e atos públicos pela minha liberdade, que protestam no mundo inteiro contra a perseguição e pela democracia, e especialmente aos que me acompanham diariamente na vigília em frente ao lugar onde estou.

Um homem pode ser injustamente preso, mas as suas ideias, não. Nenhum opressor pode ser maior que o povo. Por isso, nossas ideias vão chegar a todo mundo pela voz do povo, mais alta e mais forte que as mentiras da Globo.

Por isso, quero pedir, de coração, a todos que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para Presidente da República. E peço que votem nos nossos candidatos a governador, deputado e senador para construirmos um país mais democrático, com soberania, sem a privatização das empresas públicas, com mais justiça social, mais educação, cultura, ciência e tecnologia, com mais segurança, moradia e saúde, com mais emprego, salário digno e reforma agrária.

Nós já somos milhões de Lulas e, de hoje em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros.

Até breve, meus amigos e minhas amigas. Até a vitória!

Um abraço do companheiro de sempre,

Luiz Inácio Lula da Silva"

Nós apoiamos

Nossos parceiros