Para especialistas, presidente ainda tem capacidade de reação no Congresso

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O presidente Michel Temer deu sinais de que ainda tem apoio político na Câmara ao articular com partidos aliados a troca de integrantes da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), na tentativa de barrar a denúncia de corrupção passiva da qual é alvo. No entanto, mesmo que consiga vencer na CCJ e no plenário da Câmara, o presidente perdeu as condições de governabilidade e dificilmente conseguirá concluir o mandato. No Valor Econômico

presidente Temer

A análise é compartilhada tanto pelo diretor Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), Antonio Augusto Queiroz, que acompanha de perto as negociações no Congresso, quanto pelo cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, responsável por produzir relatórios sobre a conjuntura política para o mercado financeiro.

Temer negociou com lideranças do PSD, PTB, PR, PRB, PMDB e SD a troca de integrantes da CCJ que votariam contra ele, para tentar derrotar o parecer favorável à denúncia apresentado ontem pelo deputado Sergio Zveiter (PMDB-RJ). O presidente tenta manter o apoio do baixo clero e evitar que uma decisão contrária a ele na CCJ contamine a votação no plenário da Câmara. "Apesar de essas trocas demonstrarem o medo de derrota e a fraqueza do presidente, é uma estratégia inteligente, que dá moral para a tropa de Temer no plenário", disse Queiroz, do DIAP.

Independentemente do resultado da votação na CCJ, o plenário da Câmara julgará o pedido feito pela Procuradoria Geral da República para o Supremo Tribunal Federal julgar o presidente. "O presidente ainda tem capacidade, mesmo que pouca, de mobilizar a base", afirmou Cortez, da Tendências. "Temer não pode perder o voto do baixo clero", disse.

Na análise feita pelo diretor do DIAP, Temer tem chances de barrar na Câmara as denúncias por corrupção passiva e por obstrução da Justiça, apresentadas pela Procuradoria Geral da República. No entanto, dificilmente conseguirá impedir a denúncia por formação de quadrilha, segundo avaliou Queiroz. "Pessoas muito próximas ao presidente foram presas", disse. "O desgaste contra o governo vai permanecer com uma série de denúncias que serão apresentadas. Está evidente que as condições de governabilidade são precárias e que o presidente só está conseguindo esse apoio depois de fazer muitas concessões, entre emendas parlamentares e cargos", afirmou. "E isso não dá nenhuma garantia de governabilidade".

Diante da fragilidade política do governo, Temer mantém o apoio de partidos aliados porque ainda não há consenso em relação a seu eventual substituto. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), é visto com restrição, apesar de ser o mais cotado para assumir a Presidência em uma eleição indireta.

Segundo Queiroz, o substituto de Temer deve preencher cinco requisitos: ter boa articulação política e voto no Congresso, manter a equipe econômica, manter a agenda de reformas, não ser alvo de investigações e ter maturidade e equilíbrio emocional. Maia não atende os dois últimos itens.

O presidente da Câmara é visto como "temperamental" e "sem equilíbrio emocional" suficiente para enfrentar as dificuldades, em um momento de grave crise. "Mas entre os que estão no páreo, Maia é o que mais tem chance de assumir. Ainda mais se o PSDB deixar o governo, depois da aprovação da reforma trabalhista", disse. "Temer está vulnerável e não deve concluir o mandato".

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