A conjuntura inverossímil e as esquerdas

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As esquerdas não conseguem perceber a estratégia de Bolsonaro. É equivocada a ideia de que ele estaria preparando o terreno para um golpe de tipo tradicional.

Aldo Fornazieri*

A política brasileira não pode ser e geralmente não é compreendida pelas categorias conceituais normais da análise e da ciência política, sejam elas quais forem. Talvez seja também por isso que as esquerdas têm uma enorme dificuldade de captar as tendências dos rumos dos acontecimentos quando procuram enquadrá-la em categorias marxistas de análise.

A política brasileira se move por outras chaves. As chaves da esperteza, do ludibrio, da hipocrisia, da farsa, do ardil, do engodo e por aí vai. No Brasil, os revolucionários se aliam aos antirrevolucionários, os progressistas aos piores conservadores, os representantes do povo às elites historicamente predatórias… A incoerência, a corrupção pecuniária, a corrupção dos princípios, o pragmatismo mais rasteiro são práticas que unem quase todos os políticos e quase todos os partidos no mesmo baile de máscaras onde o disfarce e a manipulação se traduzem no modo de ser permanente dos espertos que, em última instância, só querem satisfazer os seus interesses e abocanhar nacos de poder.

É por esses e por outros motivos que a conjuntura política se apresenta sem lógica, mostra uma verdade inverossímil na qual a farsa se legitima e se consolida. Veja-se, por exemplo, que mesmo com todos os desatinos do governo Bolsonaro, com o desmonte da educação, da saúde, da cultura, da ciência e tecnologia, dos programas sociais, Bolsonaro vai se consolidando em 1/3 do eleitorado e passa a liderar as intenções de voto para 2022.

Todos sabem que a máquina do governo está parada. As filas do INSS são a evidência crua da paralisação do governo. Todos sabem que a economia se arrasta e não consegue sair do atoleiro do baixo crescimento. A desigualdade, a pobreza, o desemprego e a informalidade são realidades brutais que massacram a maior parte dos brasileiros. Isto não impede a consolidação de figuras como Bolsonaro, Moro, Guedes e Damares Alves.

Bolsonaro governa através do exercício diário da grosseria, da violência verbal, da falta de decoro, da ofensa, da bravata, da mentira, da propaganda enganosa e das promessas irrealizáveis. Mesmo assim, ele se consolida e vai ganhando o jogo. Boa parte dos analistas de esquerda está tão alienada do jogo político real que vem especulando desde os primeiros meses de governo acerca de uma possível queda de Bolsonaro. Essa queda não está no horizonte e é improvável que se apresente. O mais provável é que Bolsonaro chegue competitivo em 2022.

Existem várias razões que determinam a inverossimilhança da conjuntura na qual Bolsonaro ganha o jogo com bravatas. Uma delas consiste no fato de que o governo não tem uma oposição efetiva. Na oposição, o PT é um PSDB. O PSol não consegue ser o PT combativo, virtuoso, do seu oposicionismo do passado. Enquanto os líderes do PT estão em declínio, o PSol não consegue projetar novas lideranças nacionais. Haddad e Boulos, por exemplo, que ganharam projeção nacional em 2018, se recolheram, desmobilizaram suas tropas. Haddad, inclusive, emite sinais ambíguos e desestimuladores, de que estaria abandonando a perspectiva de disputar cargos relevantes no cenário nacional.

Enquanto Ciro Gomes vive se autoimolando pelo descontrole verbal e emocional, os governadores do PT não conseguem projetar liderança nacional. Flávio Dino, por seu turno, vem dando mostras sistemáticas de falta de prudência ao afirmar a possibilidade de apoiar Luciano Huck num hipotético segundo turno contra Bolsonaro. Ao afirmar tais hipóteses, Dino despotencializa a sua liderança. Os políticos sábios e prudentes, em regra, evitam falar em termos hipotéticos, principalmente quando as hipóteses não expressam projeção de seu poder. Toda afirmação de um líder é entendida pelos liderados como uma orientação. Por isso é preciso ser sábio e prudente nas declarações.

Ora, quando Dino fala em hipotético apoio a Huck promove a potência deste em detrimento da sua. Fala antecipa e desnecessariamente de uma possível derrota. Se ele faz isto como tática para atrair o apoio do centro, trata-se de uma tática errada. Ele deveria declarar a viabilidade de sua candidatura ou da candidatura de um candidato progressista e deveria dizer que contará com o apoio do centro para enfrentar Bolsonaro num segundo turno.

A liberdade de Lula, por outro lado, não o tornou capaz de retirar a oposição de sua apatia. Lula se deu conta do caráter performático e meramente retórico da oposição a Bolsonaro. No festival PT 40 anos afirmou que não adianta ficar xingando Bolsonaro. Conclamou a juventude a tomar as ruas. “Estão destruindo tudo o que nós montamos… Se ficarmos com medo, não formos pra rua, não protestarmos, nós estaremos perdidos”, disse, numa clara manifestação de consciência do atoleiro em que as oposições se encontram.

As esquerdas não conseguem perceber a estratégia de Bolsonaro. É equivocada a ideia de que ele estaria preparando o terreno para um golpe de tipo tradicional. A estratégia dessa direita que opera no Brasil e em outros países consiste em tensionar os limites da democracia e do Estado de Direito de forma permanente, impondo recuos às conquistas e em mecanismos democráticos. Se não encontrarem resistências, as perdas serão paulatinas e crescentes.

O fato é que no Brasil as esquerdas e os setores democráticos da sociedade não têm uma estratégia de resistência e de mobilização capaz de barrar a desconstrução das parcas conquistas democráticas. Não basta apenas criticar. É preciso estabelecer uma linha divisória a qual o bolsonarismo não pode ultrapassar. A forma cordata, protocolar e institucional com que a oposição vem tratando os ataques autoritários de figuras do governo não só permitem que a linha divisória seja ultrapassada, mas facilitam a imposição de recuos democráticos na institucionalidade e na vida social. Na verdade, a conduta da oposição normaliza o autoritarismo de figuras do governo.

Bolsonaro está lançando mão de um freio de arrumação em sua estratégia. Percebeu que o governo não pode ser tocado na base da marcha forçada da ideologia de extrema-direita. Por isso, sem abrir mão de seus arroubos e rompantes ideológicos e grotescos, está entregando a gestão do governo nas mãos dos militares, fortalecendo uma perspectiva mais pragmática e racional e, possivelmente, com uma revisão parcial da política econômica, mas sem que signifique um rompimento com o modelo liberal de Paulo Guedes. Até porque a política econômica é a ponte que liga o governo ao centrão.

Por outro lado, Bolsonaro aposta muitas fichas na viabilização de seu projeto político para 2022 com a formação da Aliança pelo Brasil. É neste terreno que ele visa consolidar sua liderança de extrema-direita organizando e mobilizando as forças conservadoras e extremistas, com lastro forte nos evangélicos e nas polícias militares.

Bolsonaro se deu conta de que sem uma força política própria, organizada, disciplinada e mobilizada não conseguirá avançar com seu projeto ideológico. Assim, consolidou uma aliança pragmática com os militares para salvar pragmaticamente o seu governo. Como Bolsonaro não compõe com outros partidos, sabe que os militares são a única força que pode viabilizar o seu governo neste momento. Com isso, visa ganhar tempo para implantar seu projeto político-ideológico com a formação de um partido neofascista, já que o uso da violência política e social para se impor está no arcabouço originário desse partido.

(*) Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

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