Um outro sindicalismo é possível… com as mulheres

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O modelo de “sindicalismo de movimento social”, como o próprio nome diz, propõe um retorno às origens por mais movimento e menos instituição, mais democracia e menos hierarquia, mais parceria e menos protagonismo, por mais políticas sociais e menos corporativismo.

Deise Recoaro*

Ser mulher na atual conjuntura, mais do que nunca, virou sinônimo de resistência. Aproveitemos então o mês de março para buscar inspiração naquelas que sempre resistiram.

Na tentativa de conter qualquer reação mais institucionalmente organizada contra a Reforma da Previdência, Bolsonaro agora mira seu “revólver” para cima dos sindicatos e promete vir com chumbo grosso. Por meio da Medida Provisória (MP) 873/19, Bolsonaro quer fazer sangrar a forma de arrecadação financeira das entidades. Como se já não bastassem os impactos negativos da reforma trabalhista do Temer sobre os sindicatos, a situação tende a agravar com as dificuldades impostas pela MP. Pois, para aqueles trabalhadores e trabalhadoras que querem manter vivas suas entidades, terão que contribuir por meio de boleto bancário, ao invés do desconto em folha, entre outras malvadezas.

Os sindicatos de diversos países vêm driblando os ataques e buscando formas de sobrevivência para continuar cumprindo minimamente seu papel histórico, que é de equilibrar as relações de exploração no mercado de trabalho. Gostemos ou não dos sindicatos, uma coisa é certa: se ruim com eles, pior sem eles. Os sindicatos, conforme afirmam estudiosos como Alan Touraine, são resultado de um dos primeiros e mais poderosos movimentos sociais organizados. Foram capazes de aglutinar pessoas em torno de uma causa, criaram uma identidade de classe e promoveram transformações sociais que mudaram os rumos políticos e econômicos de muitos países.

No Brasil, o “novo sindicalismo” entre os anos de 1970 e 1980 foi a principal força contra a ditadura militar e se tornou referência internacional para aquilo que chamam hoje de “sindicalismo de movimento social”. Esse modelo é visto por diversos especialistas no tema como uma saída para a crise que o sindicalismo vem enfrentando. Isso porque, entre outras características, teve a capacidade de fazer parcerias com outros movimentos e formular políticas e reivindicações que vão para além dos muros da empresa. Dito de outra forma, para além das questões corporativas.

E o que as mulheres têm a ver com isso? Se o sindicalismo de movimento social é visto como uma alternativa à crise de representatividade, as mulheres já se inserem no sindicalismo em crise porque os sindicatos historicamente foram hostis à presença feminina. Essa hostilidade pode ser explicada devido à entrada tardia das mulheres no mercado formal de trabalho, ao rebaixamento dos salários que essa entrada promoveu e/ou porque foram acusadas de dividir a classe trabalhadora com as suas demandas, ditas específicas. Isso tudo sem falar das atitudes machistas que também se reproduzem no movimento sindical.

As mulheres desenvolveram rapidamente a receita de sobrevivência nesse ambiente e alargaram o papel das centrais sindicais em parceria com outros movimentos sociais, em especial com o feminismo. Essa relação com o feminismo contribui para politizar as relações de trabalho (entre o produtivo e reprodutivo) e de poder, sob a máxima de que “o pessoal é político”.

É incontestável que as mulheres estão à frente das principais manifestações dos últimos anos, não só no Brasil, como também nos EUA com a “Marcha de Mulheres contra Trump”, na Argentina pela legalização do aborto, e com a ousada greve geral de mulheres na Espanha. No Brasil as mulheres têm conseguido arrastar multidões às ruas a exemplo dos atos do “Fora Cunha”, do “Ele Não” e, mais recentemente, das mulheres contra Bolsonaro nos atos de 8 de março. Não é para menos. Motivos para protestar é que não faltam: continuamos ganhando menos que os homens, não temos autonomia sobre nossos corpos e somos as mais prejudicadas com a reforma da Previdência.

Nesse momento de severos ataques contra todo pensamento crítico, contra a liberdade de expressão e sobre qualquer forma de exercer a democracia, a Central Única dos Trabalhadores (e das Trabalhadoras) tem um grande desafio pela frente. Trata-se da principal central do país e uma das mais importantes do mundo. Para revitalizar o sindicalismo, não existe fórmula milagrosa ou mirabolante. Precisa olhar ao redor e reconhecer a importância e exemplo de organização que as sindicalistas construíram. Elas não só resistiram como também ampliaram a representação feminina na direção da central, desenvolvem parcerias com diversos movimentos, partidos e centrais na luta contra toda forma de opressão (de gênero, raça, orientação sexual ou classe) e, de forma horizontalizada, seguem articulando com os movimentos sociais em todo o Brasil.

Apesar de a CUT ter paridade na sua direção, a participação das mulheres nos sindicatos e demais estruturas (federações e confederações) sequer consegue atingir a cota mínima de 30%. Em tempos de crise política e econômica, de discursos autoritários e do medo, as conquistas das mulheres tendem a ser as primeiras a caírem, porque fica valendo a máxima do “salve-se quem puder”. Pode mais quem detém poder, quem ocupa os principais cargos, quem controla a máquina sindical. Historicamente, as mulheres são as primeiras a terem que abrir mão de suas pautas, cargos e recursos, em nome da unidade e manutenção de um modelo de sindicalismo que já apresenta sinais de decomposição.

O modelo de “sindicalismo de movimento social”, como o próprio nome diz, propõe um retorno às origens por mais movimento e menos instituição, mais democracia e menos hierarquia, mais parceria e menos protagonismo, por mais políticas sociais e menos corporativismo. Sabemos que não são mudanças fáceis de serem implementadas, mas se colocam também como uma nova potência de revitalização dos sindicatos e do sindicalismo. As mulheres, pela própria condição e repertório de mundo, estão mais voltadas às demandas sociais e mais aptas à diversidade, têm nos dado exemplo de que um outro sindicalismo é possível.

(*) Doutoranda da Universidade de Coimbra, integrante do Conselho da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e militante feminista da AMB (Articulação de Mulheres Brasileiras)

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