A vergonha que ficou no meio do caminho

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No dia 17 de abril de 2016, tucanos votaram com Bolsonaro pela destituição da presidente da República. Demorou 4 anos para que um correligionário, o senador Tasso Jereissati (CE), se dissesse arrependido da sociedade tucana com um defensor de torturadores. Foi ali que a candidatura Bolsonaro começou a ganhar impulso. O bumerangue nasceu na acusação de fraude nas eleições, passou pelas pedaladas contábeis e voltou à deslegitimação das instituições eleitorais. Levou 4 anos para o percurso, mas pode demorar muito menos para fazer retroagir o regime que, depois de 33 anos, se imaginava consolidado.

Maria Cristina Fernandes*

O vídeo de 20 minutos divulgado na noite de domingo, quatro dias depois da segunda cirurgia à qual se submeteu, Jair Bolsonaro fez três acusações, igualmente graves: que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fugiu do país antes de ser preso porque tinha um plano B, o de fraudar as eleições; que a ex-presidente Dilma Rousseff, em conluio com a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, colaboraram para esta fraude ao vetar a impressão do voto; e que o PT programou as urnas eletrônicas para voltar ao poder e eleger uma expressiva bancada de deputados.

Na noite em que Bolsonaro resolveu fazer, ao vivo, o depoimento caseiro, gravado pelo filho Flávio, circulava, em redes sociais, a pesquisa de um banco, feita semanalmente por telefone. A pesquisa indicava a ascensão do candidato do PT, Fernando Haddad, para o segundo lugar na disputa, numa velocidade ainda maior do que a queda da rejeição de Bolsonaro, mantido na liderança.

Além da verdade, o candidato tentou esfaquear, com a gravação, o que ainda resta de voto envergonhado no eleitorado para arrancar, ainda no primeiro turno, uma vitória nas urnas e evitar o mata-mata de 28 de outubro. O tom e o foco da gravação foram completamente distintos da primeira imagem a circular de Bolsonaro na UTI dois dias depois do atentado de 6 de setembro. Na foto de um celular da família, Bolsonaro aparecia deitado, a reproduzir o gesto de quem segura uma metralhadora.

A imagem prejudicou o potencial de recuperação do candidato junto às mulheres, público que já havia demonstrado estar mais suscetível à estreia do horário eleitoral gratuito, que fez de Bolsonaro o principal alvo. Nas inserções mais diretas, do PSDB, a imagem do capitão foi associada à bala de prata que não resolve a violência e discrimina as mulheres.

Os ideólogos do bolsonarismo acreditam que o candidato teria uma avenida desimpedida para o Palácio do Planalto não fosse o voto envergonhado. Em contraposição aos "bolsominions" que fecham semáforos com coreografias ensaiadas e lotam as redes sociais com a propaganda de seu candidato, ou ainda de produtores rurais que expõem a propaganda de Bolsonaro em suas porteiras como quem coloca uma placa de cão de guarda, parte expressiva do seu eleitorado faria uma opção silenciosa porque se percebe minoritária no seu meio social e na opinião pública.

Capitaneados por Olavo de Carvalho, escritor brasileiro radicado nos Estados Unidos, os ideólogos do bolsonarismo valem-se da espiral de silêncio, de Elisabeth Neumann, para explicar o que seria o voto subestimado pela vergonha. A filósofa alemã, que se doutorou em opinião pública durante a ascensão do "3º Reich" e foi professora convidada na Universidade de Chicago, formulou sua tese em livro de 1982, só traduzido no Brasil no ano passado ("A Espiral do Silêncio - Opinião Pública: Nosso Tecido Social"). Nele, expõe o comportamento daquele que se percebe minoritário face a uma opinião pública dominante e, para ser melhor aceito em seu meio social, tende a omitir ou mesmo a mentir sobre sua posição política.

No ano em que o livro de Elisabeth Neumann foi publicado na Alemanha, o prefeito negro de Los Angeles, Tom Bradley, foi candidato ao governo da Califórnia. Liderou toda a campanha, mantendo vantagem folgada nas pesquisas até a véspera da eleição. Um mês antes da eleição, o estrategista de seu adversário dissera que Bradley perderia porque havia um percentual significativo de indecisos que não revelavam seu voto porque temiam o rótulo de racistas. O colaborador foi demitido, mas seu vaticínio acabaria por se confirmar.

Bradley perdeu a eleição, mas é a seu nome que o fenômeno é mais reiteradamente vinculado quando se fala de candidatos estigmatizados que lideram pesquisas e perdem no final. O ex-presidente americano Barack Obama só escapou dele na eleição de 2008 porque o comparecimento dos eleitores negros foi superior ao previsto.

A permanência, no Brasil, de um patamar inédito de indecisos e de votos em branco e nulos já era atribuída por muitos à prevalência do voto envergonhado nos líderes da disputa, Bolsonaro pelo radicalismo, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela condição de presidiário. Mas foi a sedimentação de valores eleitorais como o da justiça social que despertou em ideólogos de direita a percepção de que o voto envergonhado poderia ser mais marcante para o eleitorado. Nada mais revelador desse receio do que unanimidade com que o Bolsa Família passou a ser tratado pelos candidatos, inclusive pelo representante do PSL.

Antes da campanha eleitoral, Olavo de Carvalho já recorria à teoria da espiral do silêncio para argumentar como a ditadura do politicamente correto alimenta consensos artificiais por meio de constrangimentos públicos na imprensa e em redes sociais. O alerta ao voto envergonhado, porém, não se restringe a intelectuais de direita. Em redes sociais, o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor da FGV, já se valeu do "efeito Bradley" para alertar contra o risco de sua repetição nas eleições de outubro.

Um consultor do mercado financeiro que não é simpatizante de Bolsonaro, mas dedicou uma parte de suas férias a ler sua biografia, foi obrigado a arrumar uma capa extra para seu livro depois de observar a quantidade de pessoas que passavam por sua cadeira de praia na Bahia e lhe dirigiam um olhar atravessado. O fenômeno se repete diariamente em redes sociais em que milhares de brasileiros têm evitado se pronunciar para não perder amigos ou provocar cizânias familiares.

Bolsonaro e Marina Silva ocupariam os extremos no espectro da transparência do eleitor. Pelas reações que desperta, o candidato do PSL teria o mais envergonhado dos eleitores. A candidata da Rede, por trafegar sem dificuldades à direita ou à esquerda, teria o eleitor mais disposto a revelar seu voto. A intenção de voto de Marina, portanto, seria a mais fidedigna do mercado de pesquisas, enquanto a de Bolsonaro, a de menor acurácia.

A tese de que o país estaria invadido por uma onda de voto envergonhado logo foi abraçada por pesquisadores que se valem de pesquisa telefônica. A distância entre o eleitor e o entrevistador faria dessa modalidade de entrevista a mais fidedigna. Essa distância, que, em alguns casos, pode ser radicalizada com a realização da pesquisa por um robô, facilitaria a livre expressão do eleitor. Isso explicaria por que a ascensão de Bolsonaro teria começado a ser detectada nas pesquisas telefônicas e, só então, confirmada pelos institutos tradicionais.

O peso do voto envergonhado, no entanto, está longe de ser unanimidade no mercado eleitoral. O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, minimiza-o. A orientação para que os entrevistadores não insistam caso o eleitor se mostre reticente a responder serviria de filtro. Os relatos de profissionais que colhem entrevistas, na verdade, é que os eleitores se mostram muito mais dispostos a responder do que em outras eleições. Quanto menor a renda, mais acreditam que, ao expressar sua opinião ao instituto, vocalizam sua inaudita insatisfação para instituições que lhes são surdas. Intimidados ficam alguns entrevistadores quando abordados por transeuntes que, em tom ameaçador, exigem que se lhe mostrem os questionários e questionam sua veracidade.

O argumento mais forte de Paulino para a descrença na vergonha do eleitor, no entanto, é o desempenho de Bolsonaro no voto espontâneo. Um terço do eleitorado opta pelo candidato do PSL antes mesmo de ser apresentado a uma cartela de nomes. O terço bolsonarista, assim como o quinto do eleitorado, petista sob chuva ou sol, não são suscetíveis à intimidação eleitoral. É na metade restante, porém, que se abrigaria o eleitor envergonhado, mais de Bolsonaro do que de Haddad.

O amálgama dos votos no candidato do PSL, abertos ou envergonhados, é o antipetismo. De tão dispostos a evitar a volta do PT ao poder, os eleitores estariam propensos a dar uma carta branca a Jair Bolsonaro ou, para ficar no seu dialeto, a munição que deseja. No vídeo do dia 16, o capitão chega a dizer que mais grave que a corrupção é a "questão ideológica".

Em pleno século 21, Bolsonaro confere ao antipetismo o mesmo poder de arregimentação que Hitler deu ao bolchevismo na primeira metade do século passado. "Bolchevismo é a nossa grande ameaça. Mate o bolchevismo na Alemanha que se devolverá o poder a 70 milhões de pessoas", disse o ditador nazista, cujo partido ascendeu ao poder pelo voto, em entrevista de 1923 a George Sylvester Viereck.

Na linha de apostar no antipetismo como arma para a deslegitimação das instituições eleitorais do país, o senador tucano e ex-candidato à Presidência da República Aécio Neves foi um precursor. Tão logo fechadas as urnas das eleições de 2014, o PSDB, presidido por Aécio, questionou o resultado das urnas, dando início ao movimento pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

No dia 17 de abril de 2016, tucanos votaram com Bolsonaro pela destituição da presidente da República. Demorou 4 anos para que um correligionário, o senador Tasso Jereissati (CE), se dissesse arrependido da sociedade tucana com um defensor de torturadores. Foi ali que a candidatura Bolsonaro começou a ganhar impulso. O bumerangue nasceu na acusação de fraude nas eleições, passou pelas pedaladas contábeis e voltou à deslegitimação das instituições eleitorais. Levou 4 anos para o percurso, mas pode demorar muito menos para fazer retroagir o regime que, depois de 33 anos, se imaginava consolidado.

(*) Jornalista. Publicado originalmente no jornal Valor Econômico

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