Por que Bolsonaro lidera?

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Num quadro de desesperanças e apatias políticas, o deputado-candidato presidencial trilha, aparentemente incólume, caminho que pode redundar no 2º turno. Resta saber se conseguirá sustentar sua retórica raivosa sobre a secundária pauta identitária que lhe sustenta diante dos abissais problemas estruturais brasileiros.

Leonel Cupertino*

Desde as manifestações suprapartidárias que tomaram conta do país em 2013, responsáveis diretas por levar a ex-presidente Dilma Rousseff ao abismo do impeachment 3 anos depois, é razoável acreditarmos que, silenciosamente, algumas coisas mudaram definitivamente na política nacional.

Ainda somos o País do futebol, do Carnaval e das telenovelas, mas diante da sequência de crises de ordem política e econômica vividas pelos brasileiros nos últimos tempos, o assunto “sucessão presidencial” parece ter entrado de vez no rol dos debates familiares, entre os comerciantes, dos vizinhos, nas praças, nas ruas, na internet, etc.

A mídia, mais uma vez, tem relevante papel nesse processo. Nunca se discutiu tanto o tema “política” no Brasil, como nos últimos tempos. Emissoras de televisão aberta e fechada reservam, diariamente, preciosos minutos para abordar o tema, lançando enxurrada de informações sobre o que se passa nos gabinetes, palácios e plenários Brasil a fora. Cada vez mais, também, as redes sociais democratizam e lançam as pessoas no meio desta correnteza de mobilização — partidária ou não.

Pautas indenitárias sempre estiveram presentes aos acalorados debates no Twitter e no Facebook, entretanto, de uns tempos para cá percebemos que o nível da discussão parece ter tomado outra proporção. Não é difícil nos depararmos com internautas discutindo economia, Previdência Social, modelos de tributação, relações de trabalho, entre outras coisas.

Podemos tratar os últimos 5 anos, no Brasil, de maneira numérica: foram 2 copas do mundo sem nenhum título; 2 processos eleitorais concluídos e 1 em andamento; o 2º processo de impeachment em menos de 25 anos de regime democrático; bilhões de reais desviados de estatais; centenas de políticos investigados; dezenas de representantes dos poderes executivo e legislativo presos, entre eles 1 ex-presidente da República; além de milhões de desempregados.

Feito o panorama social do Brasil contemporâneo, é razoável concluir que o eleitor chega às vésperas da eleição de 2018 carente de estabilidade e autoridade — valores que nem este e nem o governo anterior conseguiram sustentar.

Assim como acontece no resto do mundo, o brasileiro é um povo pouco interessado em política e consumidor de má informação. Essa tendência se acentuou com o advento das redes sociais, onde tudo circula rapidamente e com teor de confiabilidade cada vez menor. As pessoas, em geral, têm preguiça de checar as informações que recebem, e não raramente passam adiante como verdade absoluta.

Para além da utilização de atalhos informacionais, o Brasil também segue a tendência mundial de confiar cada vez menos em partidos políticos. Nessa perspectiva assistimos, sobretudo pós-manifestações de 2013, ao surgimento de dezenas de movimentos civis, oriundos de iniciativas sociais, sem fins lucrativos e sem vinculação partidária, que dizem defender atuação política independente.

É a partir daí que surge a gênese do voto em figuras conservadoras, como o deputado federal do Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro. Atuações políticas ditas “independentes” por seus organizadores estão, na verdade, atreladas à direita e centro-direita no espectro ideológico. Seus membros em geral tem perfil indignado, que buscam no caminho mais simples do patrulhamento moral e da liberdade econômica uma solução mágica para os graves problemas que o Brasil contemporâneo enfrenta.

É um eleitor desconfiado da mídia tradicional, replicador das Fake News e que, não raramente, tende a ser alienado. Esse eleitor absorve como verdade absoluta apenas o que o próprio candidato produz em suas redes sociais e estas, por sua vez, passam a ter significância equivalente aos grandes veículos de informação, com afirmações sempre verossímeis, dando-lhes um verniz de credibilidade que nunca existiu.

Trata-se do perfil de uma significativa parcela conservadora do eleitorado, que se uniu àqueles menos radicais que veem na [falta de] segurança pública o principal problema do país, principalmente em grandes centros urbanos e regiões metropolitanas. Esses segmentos, unidos, formam o bloco de apoio ao deputado carioca Jair Bolsonaro, sendo possível até mensurá-lo em números — cerca de 20%.

Existe, evidentemente, diversos fatores estruturais que também devem ser considerados quando tentamos justificar sua liderança nas pesquisas de intenção de voto.

1º) esses mesmos levantamentos mostram que as eleições gerais de 2018 serão marcadas pelo voto de protesto, exercido inclusive pelo “não-voto”. Ou seja: muito provavelmente o Brasil registrará elevados índices de votos brancos, nulos, sem contar naqueles cidadãos que simplesmente não comparecerão às urnas, acentuando um fenômeno conhecido como “alienação eleitoral”.

O intuito desse movimento é, principalmente, questionar o atual sistema de representação, colocar em xeque as instituições e a chamada “classe política” que as compõem e diminuir a legitimidade dos eleitos. Aqueles que hipotecarão seu voto ao candidato Jair Bolsonaro também se encaixam nessa perspectiva, sobretudo diante da escalada de eleitores que se posicionam contra o liberalismo democrático, chegando ao ápice de pedir intervenção das Forças Armadas, o que mergulharia o País num indesejável regime de exceção.

2º) numa campanha de curta duração, como será a de 2018, é difícil apostar numa “desidratação” efetiva do líder nas pesquisas neste 1º turno. Essas pesquisas já apontam processo de cristalização do eleitorado do deputado carioca — formado em sua maioria por homens, jovens, brancos, de classe média, com altos índices de escolaridade. Fazer esses apoiadores mudarem de ideia será uma árdua tarefa que pode resultar em muitos resultados — inclusive no fracasso.

3º) embora Bolsonaro e sua família façam parte do sistema político há décadas, ele traveste-se de outsider para angariar o voto daqueles que se sentem descontentes com o atual sistema. Trata-se de estratégia inteligente, embora pouco crível, mas isso pouco importa ao seu eleitor, tamanho o ceticismo deste em relação ao futuro político do país e de seus futuros representantes. Acredita-se que o deputado possa mudar a ordem das coisas, pondo a cabo décadas de eleições que só existem para garantir a manutenção de status quo — e por isso o establishment declinou em apoiá-lo.

4º) é comum às democracias consolidadas a existência de polarização constituída por forças políticas ideologicamente antagônicas. No Brasil, durante os últimos 20 anos, PT e PSDB foram responsáveis por essa dicotomia, sendo possível identifica-la por meio de recortes sociais e até regionais. Neste ano, ao que tudo indica, o candidato do PSL parece ter ocupado o espaço que historicamente pertenceu aos tucanos. No caso do PT, a insistência do partido à candidatura do ex-presidente Lula — líder nas pesquisas — e todos os movimentos realizados por este ator no tabuleiro político para sustentar a hegemonia de sua legenda e de si mesmo à esquerda, explicitam suas verdadeiras intenções.

Ao insistir no juridicamente insustentável nome de Lula, o PT reafirma, categoricamente, que quer ir ao 2º turno contra sua antítese. Ou seja: quer mesmo dividir o país entre direita e esquerda; nós e eles; azuis e vermelhos. Aos eleitores que não se identificam com nenhuma dessas 2 forças, restará o lamento, uma vez que ficarão reféns das circunstâncias.

Cabe ponderar tudo o que foi dito com as dificuldades que o capitão da reserva do exército inquestionavelmente enfrentará no decorrer da campanha: falta de dinheiro, fragilidade partidária, pouco tempo de televisão e rádio, frágil retórica, apoio quase inexistente na construção de palanques pelos estados, sem falar no radicalismo ideológico de fácil desconstrução.

Sua voz, porém, parece ressoar incólume, até o momento, às adversidades eleitorais impostas e, pouco a pouco, Bolsonaro percorre sua trilha à extrema-direita com certa tranquilidade, sendo possível presumir que seu nome estará, sim, presente no 2º turno.

(*) Graduando em Ciência Política pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e assessor legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

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