O afastamento do jovem da política: desinteresse ou inacessibilidade?

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O fato é que o afastamento do jovem da política não deve ser relacionado unicamente ao histórico de corrupção dos últimos anos. Há que se questionar, também, em que passo anda a construção de pertencimento político do jovem brasileiro, que a essa altura, já nasceu com o computador no mercado e não demorou muito a descobrir a internet.

Savanna Cavalcante*

O acúmulo de escândalos políticos envolvendo os mais diversos partidos têm resultado, nos últimos pleitos eleitorais, com o nítido afastamento da população da vida política do país. Não é raro um jovem da família ou alguém passando pela rua e ouvir a famigerada frase “eu não gosto de política”. Quantas vezes você parou para assistir ao horário eleitoral e alguém não pediu para trocar de canal? O fato é que o afastamento do jovem da política não deve ser relacionado unicamente ao histórico de corrupção dos últimos anos. Há que se questionar, também, em que passo anda a construção de pertencimento político do jovem brasileiro, que a essa altura, já nasceu com o computador no mercado e não demorou muito a descobrir a internet.

Notoriamente, o jovem que hoje tem 16 anos, nascido em meados de 2002, tem interesses muito diversos aos de seus pais. Ler jornais impressos ou assistir à TV ou aos telejornais já não fazem parte de seu cotidiano. O comum não é mais que haja apenas uma TV por casa, a qual a família tenha que se reunir ao redor todas as noites para assistir todos ao mesmo programa. Enquanto o pai assiste à TV, o filho, certamente, está no celular ou tablet acessando alguma de suas redes sociais — senão todas elas ao mesmo tempo — ou, ainda, estudando para o próximo vestibular. Estar sempre estudando, aliás, é uma característica dos jovens atuais.

Devemos reconhecer que a geração de jovens que hoje tem 16 anos, ou boa parte dessa, foi fruto de forte planejamento, a qual os pais idealizaram, desde a gestação, filhos advogados, médicos, engenheiros, doutores. Filhos bem-sucedidos. Filhos que ocupam certa parte do tempo mais atarefados com a educação que, talvez, renderá frutos financeiros. Filhos que estudam mais para necessidade de suprir as demandas de mercado mais competitivo, que para se formarem bons humanos. Não é culpa deles. Nem dos pais. Nem da escola. Os tempos são outros. A população cresceu. A economia mudou. A tecnologia evoluiu.

A verdade é que o afastamento dos jovens da vida política do país não se deve apenas aos erros dos políticos que ocupam as casas legislativas no Brasil inteiro. O afastamento do jovem também se deve a uma inadequação de como a política chega a eles. E quando. Há muito ignora-se que para integração mais sensata desta geração com o sentimento de cidadania são necessários esforços coletivos maiores do que apenas ter uma jovem como candidata à vice-presidente do País, ou maior que um candidato jovem ao pleito de deputado, seja estadual, seja federal.

Há que se pensar se os formatos antigos que ainda atribuímos tanta importância são os mesmos formatos desejados por pessoas mais novas, que nasceram num mundo completamente diferente. Há que se pensar que os 5, 3, ou 2 minutos de campanha na TV tão importantes para nós, talvez não sejam assim tão importantes para a geração que cresceu jogando videogame, criando websites e vendo seus canais favoritos no Youtube.

Há que se pensar se estes jovens, agora com voto apenas optativo, estarão, daqui a 2 anos, assistindo a comício na praça ou ouvindo o horário eleitoral no rádio para exercer seu voto obrigatório. O mundo mudou. As pessoas também mudaram.

E por tal mudança, a aproximação do jovem do cenário político do país exige, sobretudo, comunicação. Estar presente nos meios em que eles estão inseridos. E ser acessível. Inovar para não ser esquecido. Frente aos jovens mais ou menos estudiosos, o que mais vemos agora é o quanto dialogar se tornou importante, talvez até mais importante que campanha milionária. Mais importante que a quantidade de panfletos que podem ser distribuídos com quantias menores.

E engraçado pensar que, por reflexo de uma lei de financiamento eleitoral, talvez esse engajamento finalmente aconteça. Por meio do enrijecimento das formas de contribuição financeira, finalmente a política brasileira poderá ganhar a internet. E quem sabe, com tantas informações sobre política, não apenas para os universitários mais engajados, mas toda a população mais jovem se interesse em discutir, sim, política e futebol.

(*) Graduada em Ciência Política pela UnB, é assistente legislativa na Consultoria Política Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical

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