Dividir para reinar

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Em profunda crise e incapaz de fazer a autocrítica que exige o momento, o PT se utiliza da máxima “dividir para reinar”, a fim de garantir a hegemonia e o protagonismo político-partidário da esquerda brasileira ao nome de Lula.

Leonel Cupertino*

Na última quarta-feira (1º), a imprensa noticiou a declaração de neutralidade do Partido Socialista Brasileiro (PSB) como resultado de acordo, descobriu-se, costurado no interior da sala de Estado maior em Curitiba onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre sua prisão de 12 anos e 1 mês, conforme determinação do juiz Sérgio Moro.

Dos grandes partidos que participarão das eleições de outubro, o PSB era o último realmente relevante que ainda não tinha decidido para onde ir. Em certo momento, ficou explícito que os socialistas viviam uma espécie de encruzilhada.

Entre os 4 caminhos do partido, estavam:

1) lançar candidatura própria à Presidência da República, sobretudo após a filiação do ex-ministro do Supremo, Joaquim Barbosa, que atingiu índices realmente competitivos nas pesquisas de intenção de voto em que foi incluído;

2) aliar-se com o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), na construção de frente de centro-esquerda que contaria ainda, na melhor das hipóteses, com o PCdoB, em alternativa ao delicado momento vivido pelo PT;

3) aliar-se ao PT numa demonstração de solidariedade à prisão do ex-presidente Lula, reavendo aliança iniciada a partir do 2º turno das eleições de 2002, cujo término se deu apenas em 2013, quando o ex-governador de Pernambuco e líder do partido, Eduardo Campos, resolveu lançar seu nome na disputa pela Presidência da República nas eleições seguintes; e

4) optar pela neutralidade, priorizando alianças estaduais com a finalidade de aumentar a bancada do partido no Parlamento e, em certa medida, o número de governadores pelo país.

Com bancada de 26 deputados e 4 senadores, as origens do PSB estão no estado de Pernambuco, atrelado diretamente às figuras de Miguel Arraes e Eduardo Campos. Foi justamente para manter a hegemonia em seu estado-natal que o partido decidiu, num acordo com o PT de Lula, que não participaria diretamente das eleições presidenciais deste ano. Pesquisas de intenção de voto divulgadas recentemente apontam que o atual governador pernambucano, Paulo Câmara — ungido por Eduardo Campos ainda em 2014 — corre o risco de perder o Palácio Campo das Princesas caso a vereadora Marília Arraes (PT), dispute o cargo.

Os primeiros movimentos datam de 15 dias atrás, mais ou menos, quando a presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), visitou o governador Paulo Câmara e recebeu dele mais que 1 aceno, mas a confirmação de que haveria espaço em sua chapa majoritária para o PT. Mesmo assim, nacionalmente o PSB mantinha profícuo diálogo sobretudo com o PDT. As conversas entre Ciro Gomes e os socialistas estavam tão avançadas que, num determinado momento, o PSB já discutia internamente alternativas para o cargo de vice na chapa do pedetista.

Os termos do acordo entre PT e PSB deixaram 2 exemplos explícitos: 1º, a candidatura da neta de Miguel Arraes ao governo de Pernambuco simplesmente deixaria de existir, ainda que à revelia da própria vereadora; o mesmo ocorre do lado socialista, que depôs a candidatura do ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, ao governo do estado. Os 2 prometem judicializar a questão.

Ao não hipotecar seu apoio a nenhum candidato, seus preciosos 58 segundos (em média) em cada bloco do horário eleitoral gratuito destinado aos candidatos à Presidência simplesmente deixam de existir, e serão equacionados às candidaturas restantes. Mais do que isolar Ciro Gomes, a neutralidade do PSB favorece o tucano Geraldo Alckmin que terá, de longe, a maior coligação e o maior tempo de rádio e televisão desta eleição.

Mais do que neutralizar a candidatura do PDT e deixar importante ator (o PSB), em stand-by nessas eleições, os petistas incentivam a fragmentação das forças de centro-esquerda e esquerda, uma vez que, com o acordo, siglas tidas como “auxiliares” ou “satélites” do PT tendem a aderir ao seu projeto por sobrevivência, apesar da indefinição da candidatura de Lula.

Neste sentido, o PCdoB é o maior exemplo: após lançar a deputada gaúcha Manuela D’Ávila ao Palácio do Planalto, é bastante provável que os comunistas sigam lado a lado com os petistas, revivendo aliança que já dura 29 anos ininterruptos; enquanto isso, PSol, PCB, PSTU e PCO, siglas de menor expressão, lançam candidaturas minimamente competitivas.

Em profunda crise e incapaz de fazer a autocrítica que exige o momento, o PT se utiliza da máxima “dividir para reinar”, a fim de garantir a hegemonia e o protagonismo político-partidário da esquerda brasileira ao nome de Lula.

Internamente, o partido rechaça qualquer possibilidade de outro nome para disputar a Presidência da República mesmo às vésperas da confirmação de inelegibilidade do ex-presidente. Qualquer que seja a solução para a esquerda, entende o PT, precisa necessariamente passar pelo partido, e só será posta em prática após o aval de seu líder maior.

(*) Graduando em ciência política pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), estagiário da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

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