Como ficariam as bancadas da Câmara sem coligação

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Pelo levantamento, haveria a redução de número de partidos, de 28 para 22 siglas, o estado do Amapá seria o único em que nenhum partido teria alcançado o quociente eleitoral, e os grandes partidos seriam os principais beneficiados com o fim das coligações.

Antônio Augusto de Queiroz*

As coligações nas eleições proporcionais, feitas sem qualquer critério, têm sido apontadas como o principal problema do sistema eleitoral brasileiro na medida em que distorcem a vontade do eleitor.

De fato, no Brasil, juntam-se partidos com visão de mundo, ideias, programas, ideologias e doutrinas completamente opostas na disputa das eleições proporcionais com o único propósito de atingir o quociente eleitoral e garantir a eleição dos mais votados da coligação.

O DIAP, com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral e considerando a hipótese de que os partidos e seus candidatos tivessem tido o mesmo desempenho eleitoral, fez o cálculo de quais seriam as bancadas partidárias sem coligação nas eleições proporcionais.

De acordo com o levantamento, expresso na tabela abaixo, haveria a redução de número de partidos, de 28 para 22, o estado do Amapá seria o único em que nenhum partido teria alcançado o quociente eleitoral, e os grandes partidos seriam os principais beneficiados com o fim das coligações. Apenas como exemplo, o PT passaria de 70 para 102 deputados, o PMDB, de 66 para 102, e o PSDB, de 54 para 71. Como se pode ver, as coligações alteram de modo substantivo a forma de converter votos em cadeiras no Parlamento.

PARTIDO

ATUAL

SEM COLIGAÇÃ0

GANHA/PERDE

AC

AL

AM

AP*

BA

CE

DF

ES

GO

MA

MG

MS

MT

PA

PB

PE

PI

PR

RJ

RN

RO

RR

RS

SC

SE

SP

TO

PMDB

66

102

36

 

3

2

2

2

5

 

2

4

6

6

4

 

3

7

1

2

5

10

8

8

 

6

5

 

3

8

PT

70

102

32

8

   

1

10

6

8

2

2

2

12

4

 

4

 

3

3

5

4

     

9

3

4

12

 

PSDB

54

68

14

 

3

3

 

3

   

2

9

 

9

   

4

3

3

 

3

2

   

8

1

2

 

16

 

PSB

34

41

7

     

1

2

   

2

 

2

3

 

8

   

10

3

2

2

     

2

   

4

 

PP

36

32

-4

       

4

         

5

     

2

3

 

3

5

     

6

2

 

2

 

PSD

37

29

-8

   

3

 

4

     

2

 

4

   

3

     

1

4

     

1

4

 

3

 

PR

34

24

-10

     

1

1

2

       

2

       

2

 

2

8

           

6

 

PTB

25

19

-6

       

1

         

2

       

3

2

2

1

     

2

 

4

2

 

PRB

21

14

-7

     

1

2

         

1

             

3

           

7

 

DEM

22

13

-9

       

4

2

       

3

   

1

                     

3

 

PDT

19

12

-7

     

1

1

   

2

 

2

1

             

1

     

3

   

1

 

PSC

12

10

-2

     

1

2

         

1

           

3

             

3

 

SD

15

8

-7

       

1

2

       

1

   

1

       

1

           

2

 

PV

8

7

-1

                 

2

             

2

             

3

 

Pros

11

6

-5

         

5

                       

1

               

PSol

5

6

1

                         

1

       

4

           

1

 

PCdoB

10

5

-5

       

2

       

2

                       

1

       

PPS

10

5

-5

                 

2

             

1

             

2

 

PSDC

2

3

1

 

3

                                                 

PTdoB

1

2

1

                   

2

                               

PHS

5

1

-4

                   

1

                               

PTN

4

1

-3

                                 

1

                 

PCB

0

0

0

                                                     

PCO

0

0

0

                                                     

PEN

2

0

-2

                                                     

PMN

3

0

-3

                                                     

PPL

0

0

0

                                                     

PRP

3

0

-3

                                                     

PRTB

1

3

2

                                                     

PSL

1

0

-1

                                                     

PSTU

 0

0

0

                                                     

PTC

2

0

-2

                                                     

TOTAL

513

513

-

8

9

8

8

39

22

8

10

17

18

53

8

8

17

12

25

10

30

46

8

8

8

31

16

8

70

8

Fonte: Fonte TSE, cálculo do DIAP

*De acordo com a simulação, Amapá foi o único Estado em que nenhum partido atingiu o quociente eleitoral e por isso consideramos eleitos os mais votados.

Realmente, são situações absurdas. Dois exemplos ilustram bem as distorções que as coligações nas eleições proporcionais provocam na representação no Parlamento: o Acre e o Distrito Federal.

No Acre, caso não tivesse havido coligação nesta eleição e os partidos tivessem tido o mesmo desempenho eleitoral, apenas o PT teria atingido o quociente eleitoral e, portanto, teria eleito os oito deputados do estado. Como houve coligação, o PT elegeu apenas três e o sistema ajudou a eleger, entre outros, o policial linha dura do PSDB, Major Rocha, beneficiado pelo sistema de coligações.

No caso do Distrito Federal é muito mais grave. Nessa unidade da federação, mantidos os votos obtidos na eleição de 2014, apenas o PT teria atingido o quociente eleitoral e teria, em consequência, preenchido as oito vagas. No entanto, como houve coligação, o partido elegeu apenas um representante e os votos dados ao PT ajudaram a eleger outro integrante da coligação, o pastor Ronaldo Fonseca (Pros), cujo pensamento e ação em absolutamente nada convergem com o Partido dos Trabalhadores.

Para não ficar apenas nos exemplos do PT, citamos mais três outras situações em que um único partido teria ficado com todas as vagas do Estado. Caso não tivesse havido coligações, o PMDB teria sido o único partido a alcançar o quociente eleitoral nos Estados de Rondônia e Tocantins, e o PSDB, no estado de Roraima.

Em substituição ao fim das coligações, entretanto, seria justificável, até para preservar os partidos ideológicos, garantir a possibilidade de federações de partidos, por meio das quais um ou mais partidos com afinidade programática e ideológica poderiam se unir para disputar uma eleição, desde que se mantivessem juntos durante todo o período de mandato, sob pena de perda das vagas conquistadas via federação.

 O DIAP também fez outra simulação quanto ao desempenho dos partidos, considerando a hipótese de vigência de cláusula de barreira, de 5% dos votos nacionais e de 2% em pelo menos nove estados, na qual conclui que o número de partidos com representação no Congresso cairia de 28 para sete. Apenas o PMDB, PT, PSDB, PSB, PP, PSD e PR preencheriam tais requisitos.

A eventual adoção dessas duas medidas – fim das coligações e adoção da cláusula de barreira – combinadas com o fim do financiamento privado de campanha por empresas, conforme decisão a ser tomada pelo Supremo Tribunal Federal, levaria a uma mudança radical em nosso sistema eleitoral, alterando substantivamente a forma de transformar votos em cadeiras no Parlamento.

(*) Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap