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Dez fontes de pressão salarial PDF Imprimir E-mail
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Seg, 01 de Setembro de 2008 21:00

José Pastore

Por uma combinação de fatores, este resto de ano está sendo marcado por dez fontes de pressão salarial.

1) A demanda interna aquecida, a continuidade das exportações de commodities e de manufaturados e a expansão das empresas, assim como o dinamismo da construção civil, de agroenergéticos e de projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), vêm exigindo mais e mais trabalhadores e elevando seus salários. A demanda por mão-de-obra já está maior do que a oferta. Nos últimos 12 meses, o PIB cresceu 5% e os trabalhadores disponíveis, apenas 2,5%.

2) O desequilíbrio é mais grave para o pessoal qualificado. Para esse segmento, a pirataria tornou-se o método mais usado de recrutar. As empresas assediam os profissionais de outras. Quando a sedução funciona, umas ganham e outras perdem. É um verdadeiro leilão, no qual os salários sobem e provocam alterações em toda a pirâmide salarial. Engenheiros, químicos, “controlers”, auditores, supervisores de produção, com boa qualificação, e outros profissionais que são estratégicos para manter o crescimento continuam escassos.

3) Novas leis e novas ações governamentais têm colaborado para aumentar a demanda por pessoal qualificado. Por exemplo: a lei que obriga o atendimento pessoalizado nos “call centers” forçará a contratação de, pelo menos, mais 25% de pessoal qualificado. A campanha dos Ministérios do Trabalho e da Previdência contra a terceirização está obrigando as empresas de médio e grande portes a incorporarem nos seus quadros os que trabalhavam com menores salários em empresas de terceiros.

4) As negociações coletivas estão muito apertadas. As empresas estão sendo forçadas a ceder, se quiserem aproveitar os bons ventos da economia. O próprio presidente Lula disse aos sindicalistas ter chegado a hora de eles exercitarem a sua musculatura. O governo deu o exemplo, aumentando o salário de 350 mil servidores federais e elevando o valor do salário mínimo em 12%.

5) Falando em salário mínimo, várias categorias combinaram em buscar salários iniciais mais altos sob o argumento de que, em 2007, em 77% das 647 negociações realizadas, os pisos ficaram ao redor de 1,5 salário mínimo. Os sindicatos demandam pisos mais altos o que, novamente, afetará toda a estrutura de salários.

6) Também de modo articulado, os sindicatos das grandes categorias e que têm data-base neste segundo semestre - bancários, metalúrgicos, químicos e petroleiros - estão rejeitando sistematicamente ofertas de abonos episódicos, querendo, em seu lugar, aumentos substanciais de salários, da participação nos lucros e resultados (PLR) e dos demais benefícios.

7) Todas as categorias buscam aumentos reais de salários bastante expressivos visando a recuperar perdas passadas e recentes, usando, para tanto, índices de uma inflação própria. Argumentam que, nos últimos 12 meses, a inflação dos alimentos foi de 9,45%, bem acima da média, de 7,05%. Eles insistem que essa conta não será paga pelos trabalhadores. Por isso pleiteiam 6%, 7%, 8% (e até mais) de aumento real.

8) No campo dos benefícios, muitas categorias pedem o dobro do valor atual da PLR e dos auxílios para alimentação e transporte - o que, igualmente, pressiona os gastos com o fator trabalho.

9) Os sindicatos se dizem preparados para fazer greves. Eles sabem que, neste momento, os empresários têm verdadeiros surtos de urticária ao ouvirem tal ameaça e cedem. No ano passado, em 96% das greves, as empresas atenderam aos pleitos dos trabalhadores - parcial ou totalmente. Neste ano, não seria diferente.

10) Além de estarem mais fortes nas mesas de negociação, as entidades sindicais tiveram uma ajuda preciosa do governo, que passou para as centrais sindicais aproximadamente R$ 57 milhões para fazerem o que quiserem e sem necessidade de prestar contas. Podem aplicar em campanhas salariais estridentes que, a um só tempo, conquistem melhores condições para os trabalhadores e mais ganhos para os sindicatos na rubrica da “contribuição assistencial”.

Esse quadro já preocupa o Banco Central, que teme uma aceleração da inflação em decorrência do aumento do custo do trabalho. Mas há outra preocupação. Será que o aquecimento atual é sustentável ou estamos no meio de uma bolha? No primeiro caso, tudo se ajusta. No segundo, tudo se desajusta.

(*) Professor titular da Faculdade de Economia e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos. Texto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.
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